“Cai o pano”

19 fev

Voltando dos aprazíveis dias em Barra Grande, mesmo correndo o risco de decepcionar os leitores que esperam registro fotográfico, nada vou publicar sobre a assunto. O local é o mesmo em que fiquei no ano passado e que foi fartamente  registrado. É só clicar nos posts de fevereiro de 2011 e o maravilhoso pôr do sol lá se encontra. O mar permanece tão lindo quanto. O céu continua igual, em suas variadas nuances. A serenidade é de fazer inveja ao Paraíso. A música dos coqueiros e das ondas permanecem com o gosto de canção se ninar. Os restaurantes , embora rústicos , e justo por causa disto, merecem as cinco estrelas do primeiro mundo. É tudo muito chique e, sobretudo de excelente qualidade . Sem medo de errar! A pousada DENADA é movida a simpatia e conforto. Mas não esperem televisão, nem mesmo aparelho de DVD.

O Oceano Atlântico entrou de maneira devastadora no meu olhar. A bacia de Camamu comporta inúmeras ilhas, ilhotas e até paraísos particulares para quem pode. Ficava horas e horas cismando, meditando sobre a coragem dos navegadores que se aventuraram pelo desconhecido, em busca, sabe Deus ( e Luiz  de Camões ) de quê.

Ainda hoje, o mar, tantas vezes bravio e mesmo quando sereno, assusta e faz suas vítimas. Nunca é demais dedicar a ele, o mar, o respeito e a devoção que lhe são, por direito,  devidos. Que ninguém dele se aproxime sem a necessária reverência. Ele assim o exige! E com razão!

É preciso estar atento…

Quentes  icebergs tropicais
escondem perigos submersos
prenunciam armadilhas adversas
quiçá mergulhos infernais.
Sob as águas, à espreita,
rochas escondidas armam ciladas
sob o sereno espelho.
E, no gesto silencioso e traiçoeiro,
o insidioso e inesperado golpe se gesta,
violento, traidor.
 
( Barra Grande,  fevereiro,  2012 )
 

Foram dias de muita reflexão e algumas decisões .

Sem ir muito longe, tenho “viajado” por dentro e alcançado poucos “portos”.

Acho que chegou o instante de parar um pouco. Há mais de três anos escrevo este blog, nos “momentos bons e nos momentos maus”. Se foi interessante para alguns de vocês, muito mais o foi para mim. Chegou, entretanto, o momento de fechar a cortina.

“Cai o pano”
 
Somente ao poeta a última palavra
Manto que recobre o pensamento final
Ou, melhor ainda, 
o sentimento que agasalha
e serve de mortalha
àquele momento do último sopro
- mesmo que muito outros 
ainda estejam por vir.
Nem à ciência
Nem às crenças,
Nem aos ideais
Nem aos desejos não realizados
Nem às recordações das coisas já vividas
a nada disso dedico o meu último afeto…
É diante do suspiro do poeta,
cristalizado em palavras,
que me dobro e me enterneço
…Palavras que escorrem,
lenta e suavemente,
entre as pedras áridas
daquilo que em meu ser
não floresceu, não frutificou, não germinou.
 
Quanto de mim permaneceu
estéril, inútil, infecundo
e quanto se ressente desse vazio
- o tempo do desperdício
o tempo do desassossego.
 
 A voz do poeta vem
e massageia a mágoa
Filtra a cisma
Limpa o campo
Corrige a terra
Fertiliza o solo
…e permite-me partir
como quem ainda tem
ânimo para semear…
 

 Com a palavra, Luiz de Camões :

Canto Quinto  (in  OS LUSÍADAS )
 
Se antigos filósofos que andaram
Tantas terras por ver segredos delas,
As maravilhas que passei, passaram,
A tão diversos ventos dando as velas.
Que grandes escrituras que deixaram !
Que influição de sinos e de estrelas !
Que estranhezas, que grandes qualidades !
E tudo sem mentir, puras verdades.
 
 

…e tudo que eu tinha a dizer, foi dito.

 

 
 
 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

De volta ao Paraíso

4 fev

Ya me voy, partindo amanhã, para o mesmo Paraíso onde estive no ano passado , nesta mesma época : BARRA GRANDE, maravilhoso litoral baiano.

Acho que ali se encontra uma cópia colorida do CÉU ORIGINAL !

Para que nada seja diminuído em resultados favoráveis, sigo acompanhada das mesmas amigas que fizeram da minha estada um prazer incomparável !

Ficaremos na mesma pousada – Pousada Dinada – bonita, confortável, colada ao mar e ao Por do Sol…uma delícia!

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Poeta? Nem tanto assim.

25 jan

Há poucos dias, um amigo (poeta não assumido), estranhando meu silêncio, escreveu-me:

“Seja dia de mormaço, faça sol, faça chuva, chuvisco, seja verão, veranico, degelo, caiam as folhas, haja tempestade de granizo, borrasca, nevasca, tsunami, terremoto, chuva de meteoros, vento solar, enchente levando tudo pelo caminho, apareça aurora boreal, caiam as folhas, nasçam novos brotos e apareçam botões novinhos em folha, pojadas ou fenecidas amoreiras…há que postar alguma coisa.

Tudo bem.

Mas – e eu tô avisando – se num belo dia aparecer por aqui ceciliameirelianamente dizendo:

 ’Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa

Não sou alegre nem triste:

Sou poeta’ ,

eu vou dizer que não é bem assim.”

Pode ser…

Poeta? Nem tanto assim.

Apenas gotejo penas,

junto sílabas que choram…

Palavras que às vezes doem,

resíduos de sentimentos

…escapam sem consentimento,

sem querer ferir ninguém.

Barco cuja quilha encalha,

Rumo perdido e sem vento.

O cais, num zás! , evapora

- o barco que sai, não chega

porque ninguém o espera.

Assim as palavras soltas 

peneiram dor e tormento

em dia de aflição e mágoa.

Dia de tecer mortalha

e sufocar sofrimento.

Deixar que as penas se espraiem

e volte a soprar  o vento.

Mexer com nosso barco sem uma carta náutica confiável, esclarecedora das profundezas do oceano em que navegamos ?  Uma temeridade…que pode levar a uma situação desastrosa.

Se concordamos com Manoel de Barros:

“Sou um fazedor de frases.

O que é um verso?

É uma frase, uma unidade rítmica, que  tem como característica ser ilógica”…

então é fácil concluir:

Eu uso e até abuso da lógica. Busco insistentemente  o por quê  e o para quê  das coisas, levando (ou não) ao portanto e ao porquê. A dúvida é companheira e me perco no “…e se?”  Busco respostas…por diversão?…por necessidade?…angústias existenciais? …Sei lá!

O poeta sabe: a coerência  não é uma lei da vida. A harmonia, quando surge, é questão de sorte.

E, como saída,

vamos  ”transver” a vida.

Suspira o Manoel…

“O beijo é uma forma de diálogo” (George Sand)  (ou Amandine- Aurore -Lucile Dupin).

Vale dialogar.

José Martí e a Rosa Blanca

17 jan

Vale pensar em verdades nem sempre muito claras… mas a natureza nos ensina:

“Cultivo uma rosa branca
em junho como em janeiro
para o amigo sincero
cuja mão se estende franca.
 
E para o cruel que me arranca
o coração com que vivo
cardo nem urtiga cultivo:
Cultivo uma rosa branca.”
 
 

Convido a todos a cultivar um mundo de rosas brancas. Para quem não sabe, as rosas que aqui estão não têm sequer UM espinho. Bem podem ser  mensageiras de uma amizade verdadeira, a que alimenta, consola, alegra, encoraja, impulsiona para caminhos mais gratificantes que fazem a vida se tornar mais colorida.

Há quem diga que a rosa vermelha representa Paixão, sentimento bem diferente da amizade… Será verdade?

Pode ser! Contudo, amigos, observem o talo da rosa vermelha, e jamais se aproximem dele sem MUITO CUIDADO!

Ela, a rosa, é belíssima! Ele, o sentimento, é delicioso! Eles, os espinhos, não servem somente para “defender a rosa”… Para quem não sabe, eles ferem… mas, um dia, passa.

Ainda bem que admirar as rosas não dói nada.

E como esquecer as outras flores?

Uma carta para Mountain View

30 dez

Na mensagem anterior, escrevi:

Por mais pessoal e subjetiva que seja uma experiência, ela reverbera em pessoas que nem sequer chegamos a suspeitar…

Creio ser essa a nossa inclusão no tal “efeito borboleta”.

Antes que o ano termine cuido de dedicar algumas palavras àqueles que me acompanharam por todo o tempo. São pessoas originárias dos incontáveis recantos apontados pela rosa-dos-ventos. De muito longe elas aportam neste nosso endereço. E me deixam feliz .

Só para relembrar as mais recentes visitas: Madri, Lisboa, Porto, Antuérpia, Tóquio, Bucarest, e ainda, Canadá, África do Sul, Bélgica, Austrália… e tantas outras.

Dos Estados Unidos vem gente de Atlanta, Sacramento, Seattle, só para citar algumas das inúmeras localidades que se fazem presente.

Mas guardo uma palavra especial para alguém cuja fidelidade me comove de maneira também especial: Você, de Mountain View.

A sua presença constante é algo tão importante para mim que já entro no blog esperando encontrá-la. Tenho certeza: é a mesma pessoa que lá está!…E fantasio sobre o seu perfil, já que você não se identifica.

Será alguém jovem?
Ou alguém que já viveu o bastante para conhecer os momentos  em que a vida  torna-se nebulosa e obriga a reflexões  muitas vezes doloridas?
Será homem?…ou mulher?
Certamente fala a minha “língua”, nos dois sentidos: o meu idioma e a linguagem poética que revela-se exuberante ou, tantas vezes, doída.

Para estar tão presente é evidente que comunga com meus pensamentos e sentimentos. Não tenho dúvida: é um(a) amigo(a)…Alguém que anda de mãos dadas comigo, tão silenciosamente que já faz parte de mim, do meu dia-a-dia.

Fico imaginando  sobre seu ambiente, sua cidade – Mountain View – um lindo nome!

Nasci e vivo,  desde sempre,  próxima ao mar. Muito próxima, mesmo. Apenas alguns passos me separam da praia…parece que ela vive a me esperar…e eu nunca compareço ao encontro. O mais que admito são as conversas sob os coqueirais, em barracas que servem iguarias e bebidas refrescantes, deliciosas, se não atingirem o consumo exagerado, claro!

Talvez por isso trago em mim uma “saudade” da montanha, dos rios, dos borques, das árvores, dos campos, das paisagens onde o cultivo das flores seja menos árduo do que neste clima tropical em que habito.

Não rejeito o meu espaço, muito antes pelo contrário…amo o sol inclemente, amo as chuvas de verão, aprecio a beleza do nascer e do pôr do sol no horizonte infinito que o oceano nos oferece…

Contudo, para mim, a paisagem do Paraíso inclui florestas…e cachoeiras…

Seria assim o seu espaço?

É como imagino Mountain View contornando você, minha amizade desconhecida, mas fiel!

Encerro o ano desejando aos meus leitores uma brisa suave como aquela que Dorival Caymmi canta:

“Ó vento que ondula as águas, eu nunca tive saudade igual…
Me traga boas notícias daquela terra toda manhã
E joga uma flor no colo de uma morena de Itapuã”…

É o que lhes desejo, a todos, de tão distantes paragens desse “mundo sem porteira”…ou sem fronteiras: Uma flor no colo, trazida pelo vento das Boas Novas, em todos os dias de 2012.

O meu abraço!

Claro! – Ao meu povo, do meu Brasil, de onde vêm tantas e tantas visitas, eu também desejo  o que de melhor eu tenho para oferecer : o meu carinho!

Mensagem do coração

21 dez

Existem VIAGENS e VIAGENS ..Nos últimos tempos tenho “passeado” por terras que só a mim dizem respeito. Será que isto existe mesmo?

Não creio.

Acho que quem se dedica e explorar a alma humana tem débitos com o pequeno, mas importantíssimo, grupo de ouvintes que lhe dá atenção.

O ano chega ao fim e é quase certeza que ainda me farei presente neste espaço.

“…Coisa que gosto é poder partir…melhor ainda é poder voltar quando quero!”

“Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem…E a plataforma desta estação é a vida…”

“Pois seja o que vier…venha o que vier…Qualquer dia, amigo eu volto a te encontrar…” Milton Nascimento é o poeta da vez . E eu fico agradecida pela contribuição!

Viajo, sim, mas não demoro.

Por mais pessoal e subjetiva que seja uma experiência, ela reverbera em pessoas que nem sequer chegamos a suspeitar…

Qualquer dia a gente vai se encontrar…

Promessa é dívida

4 dez

Prometi que voltaria ao tema  ”Minha infância”…

Quando o caminho já se faz longo e a paisagem vivida vai aos poucos perdendo a nitidez, há sempre algo que fica indelével. Na maioria das vezes é algum momento admirável, lembrança que se reproduz com forte dose de encanto. De repente nos apercebemos sorrindo.

O poeta define: “Vontade de ver de novo alguém sabido chamou saudade”, e outro completa com delicada poesia, falando de “um sonho lindo perdido na madrugada, quando a saudade vasculhava a gaveta do coração”…

Esclareço que não compreendo minhas lembranças como sonho perdido, nem mesmo como saudade.

Parecem mais uma foto com som e imagem, melhor dizendo,um filme com trilha sonora, no qual um bando de pirralhos cantava com gosto, sob a batuta de um indisciplinado maestro. Não havia cobranças…O que nos movia era o prazer de conhecer belas músicas e cantá-las como as entendíamos. Não havia limites. Ninguém temia nem recuava diante do desafio de um idioma estrangeiro… Assim era, como nos parecia! …e estranhos “dialetos” iam-se sucedendo nas animadas noites, após o jantar.

Bastava um disco ( e eram muitos!) na “vitrola” e a função começava. Espetáculo diversificado, não havia escolha prévia. Tudo era bom: tango argentino,  românticas músicas italianas, a imensa variedade das deliciosas, e às vezes dramáticas , composições do nosso cancioneiro popular…e até, (podem crer!) óperas.

Não havendo Dvds, ficávamos por conta da nossa imaginação. As aulas de piano, extremamente metódicas, não se aproximavam, nem de longe, dos nossos “saraus” improvisados. Crescemos apreciando a Música e todo o bem que ela nos traz. Teoria, solfejo, harmonia, bemóis, sustenidos, bequadros, são coisas para os iniciados, nunca nos seduziram.

Costumo imaginar que, se em vez de piano, tivessem nos aproximado do violão, as coisas, digo, a vida  teria tomado um outro rumo…

“Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”…

Naquele tempo (tem gosto de coisa sagrada!) apreciávamos e curtíamos adoidado a voz de Mario Lanza e o ajudávamos a gargalhar na ópera Pagliacci…ou   La donna é mobile,  Ave Maria, Santa Lucia, Granada, eram  canja para nossas gargantas e o nosso entusiasmo. Carlos Gardel e Nelson Gonçalves tinham espaço cativo no nosso “palco”: quanto mais dramático o tango, mais sucesso fazia! …Coração Materno, Porta Aberta e “dá-lhe” Vicente Celestino que, na preferência de meu pai, perdia para Francisco Alves. E tinha mais Orlando Silva, Carlos Galhardo, Silvio Caldas,  para momentos de seresta!

Dalva de Oliveira, Ângela Maria, benditas entre as mulheres. Ima Sumac, a princesa inca, com sua voz única! Dizia-se que ela aprendera a cantar indo para a floresta imitar os pássaros…e a nossa imaginação a acompanhava em suas andanças.

Não, não é saudade, é revivência. Basta que se ouçam  novamente essas canções , o tempo retorna e o filme começa.

A música clássica – assim eram chamadas aquelas tocadas pelas grandes orquestras sinfônicas recheadas de violinos,  violas, cellos, oboés, fagotes,trompetes e tubas, piano, harpa e o pretencioso prato, pontuando o arrebatamento! – hoje “dita erudita”, escreveu um capítulo à parte na minha memória musical e afetiva.

Sei que não havia o objetivo de nos fazer mais “cultos” e sim mais sensíveis ao que nos torna felizes.

Grande homem, o nosso “maestro”!

Deixo para vocês um pouco da minha recordação.

Numa tradução livre:

Representar!
Ainda preso ao delírio não sei o que digo e o que faço!
E ainda…é do ofício…Esforça-te!
Bah!! És um homem? Tu és palhaço!!
 
Veste a fantasia e pinta o rosto de branco
As pessoas pagam e querem rir…
Se Arlequim te rouba Colombina,
Ri! Palhaço!
Alguém há de aplaudir.
Transmuta em graça o espasmo e o pranto!
Em soluços , o desgosto e a dor!
Ah! Ri palhaço! …sobre teu amor dilacerado!
Ri da dor que envenenou teu coração!
 

Achávamos esta interpretação O MÁXIMO!!! E continuo achando!
 
Por outro lado, encontrei este vídeo maravilhoso e partilho com vocês, agregando delicadeza ao período festivo do ano que se finda.
 
 

Boas Festas para todos e um Novo Ano pleno de realizações!

 

Uma nova manhã

28 nov

Apenas uma segunda feira como tantas outras…e no entanto, quanta diferença!

O dia amanheceu tão lindo! Parece que somente hoje o Supremo Artista reencontrou a fórmula da manhã perfeita.

Após dias e dias, e mais dias ainda, de chuva torrencial, céu cinzento e doentio, uma melancolia generalizada ensombrecendo as plantas, o mar, os animais e as pessoas, enfim reaparecem o sol e um quase esquecido céu azul, num clima de renascimento envolvendo tudo.

As nuvens branquinhas percorrem o espaço numa brincadeira de crianças e a brisa suave acaricia, sem desmantelar, as flores e os cabelos.

 É como se as manhãs de setembro tivessem retornado…os pássaros recuperaram seus cantos e uma expectativa de esperança brota, com força, no coração das pessoas.

VAMOS CANTAR

Quando a infância retorna

23 nov

Passei a manhã retirando a poeira da memória e deixando o pensamento vagar pelas boas lembranças  da infância.

Descobri que o melhor daquela fase não se encontra nas brincadeiras em grupo, mesmo tendo em conta os muitos irmãos e vizinhos, unidos por um tempo em que não havia televisão ou, mais grave ainda, o domínio do computador.

Era um tempo de convivência… À noite os adultos, sentados à porta das casas, numa conversa diversificada, esperavam o sono chegar. Não se descuravam, entretanto, do contato com as crianças que, em volta, brincavam em tal algazarra e com tanta animação que o banho, antes de dormir, se fazia absolutamente necessário.

O movimento era a alavanca das brincadeiras e o suor, o resultante…o banho era o preço  a ser pago , mesmo sob protestos. Picula, esconde-esconde,  corrupio, estátua,  senhora-dona-sancha, apareceu-a-margarida (“vou tirando uma pedra”, lembram?).

Uma pena: tudo sumiu pelo tubo da televisão e pelos fios do computador.

Mas não há ninguém preocupado com isso, afinal as academias se multiplicam em todas as esquinas e o exercício físico está garantido aos jovens e adultos…As crianças podem esperar a sua vez. Será isto mesmo? Ou também já foram “cooptadas” pelos múltiplos instrumentos ? “-Com bom senso, claro!!”

Até a bola e o campinho, quando existem, não se orientam para o simples divertimento; se definem como “campo de experimentação” para a descoberta de futuro$ talento$.

Os jovens já não têm o menor interesse por utopias de cunho social: estão ocupados demais na busca dos ideais que lhes são apresentados: Beleza, Poder e Riqueza.

Um Ideal com foco no altruismo desviaria a atenção do egocentrismo, e o próprio umbigo não ocuparia o centro do universo…coisa fora de moda!

Os centros de beleza se multiplicam por cissiparidade e às meninas é permitida a frequência com a mesma regularidade que às suas mamães.

As academias são a febre da vez e as pessoas as utilizam com devoção. São os templos de adoração do corpo e sua geração espontânea se faz em progressão geométrica. Como escapar disso?

O desejo de subir na escala social é impregnado na infância com o mesmo cuidado com que, há gerações passadas, se inoculava na criança a vacina contra a varíola.

A “objetofilia”- paixão desenfreada pelas coisas e a necessidade incontida de possuí-las, é a tônica da sociedade de consumo, não por acaso, a nossa .O valor da pessoa é medido pelo tanto que ela conseguiu conquistar e acumular durante sua vida. Quanto mais cedo começar, melhor!

Decididamente estamos longe da mentalidade socrática – quando Sócrates, passeando pelo mercado da Grécia, foi questionado sobre o que buscava, respondeu:

“Estou apenas observando quanta coisa existe que não preciso para ser feliz”

(Teria havido mesmo esse episódio? Se não houve, deveria ter havido!) Fico a imaginar o espanto do filósofo caso pudesse passear pelos shoppings de hoje…

Olha só! Somente agora reparei o quanto escapei do assunto que me propus a comentar : as melhores lembranças de uma infância em que muitas eram as crianças, e grande era o tempo disponível para o exercício da convivência. O tema vai ter que esperar para ser enfocado em outra oportunidade. Mas posso ir adiantando: a música recebia atenção especial. E, como sabemos, a música possui uma excelente função aglutinante…

Vamos cantar:

 

11 do 11 de 2011

1 nov

Desde sempre o ser humano sentiu a necessidade de medir o Tempo. Os ritmos da natureza serviam e ainda servem como referência para criar as medidas adequadas – o nascer e o pôr do sol, a época das chuvas ou do sol ardente, o movimento lunar e estelar, a transformação recorrente das plantas – como a mudança da flor em fruto ou o período em que o fruto está pronto para ser consumido, com sua cor e perfume tentadores… Tudo isto tem servido de medida pessoal,  desde as mais remotas culturas agrárias. Depois vieram os calendários,  para organizar  as coletividades melhor constituídas.

 Observar o tempo deve ter sido, também, uma forma magnífica de acompanhar a si mesmo, de ver-se e, lentamente, ir-se compreendendo como integrante da aventura Vida.

O nascer, certamente, é o instante da eclosão, da abertura triunfal de uma sinfonia única e intransferível. Tudo que vier a acontecer será em consequência desse momento.

Os místicos sabem, e buscam saber cada vez mais, acerca dos mistérios que envolvem esse acontecimento. Os cientistas também.

Contudo não é preciso ser muito curioso para intuir que a data 11 do 11 de 2011 é especialíssima e de forte apelo cabalístico, inspirando mágicas conspirações.

Como qualquer outro dia de qualquer outro tempo, seja passado, presente ou futuro, esse dia tem suas conexões e energias, suas coordenadas específicas e únicas, criando suas próprias causas (e efeitos) , influências e consequências, conquistas e derrotas…

É inegável: estamos diante de uma data especial.

Mesmo sem fazer parte da misteriosa fatia da humanidade que sabe ler nos búzios, nos astros, nas cartas,  nas vísceras ou nas runas , eu garanto que o espaço sagrado e místico está em festa.

Fadas, anjos,  santos,  duendes,  sacis, caiporas, orixás, ninfas e tantos outros elementais, seres mitológicos de todas as culturas, certamente  se confraternizam num grande sabá, aproveitando a beleza e a força da Lua cheia, no desejo divino  de que as energias benfazejas recaiam sobre o nosso mundo em geral , e em nossas vidas particulares, trazendo todos os benefícios possíveis. Que essas bênçãos recubram a nós todos e, em especial, aos que celebram seu nascimento nesta data.

Em Filosofia, a crise é o grande momento da superação.É o facho de clarividência que aponta novos caminhos ou nova maneira de caminhar. É a luz que esclarece as decisões e traz a força da conquista. O simples (ou complexo) fato de estarmos neste mundo já supõe  a existência do conflito.

No Mahabharata uma afirmação ( dentre todas que lá se encontram) se destaca:

“Não se pode escolher entre a paz e a guerra, mas entre uma guerra e outra.” 

Façamos bom uso das nossa escolhas pois uma coisa é certa: nós nos gastamos na dança do espaço – tempo. Não há como fugir.

Há algum tempo vi -me diante deste deus e consegui mergulhar um pouco no seu mistério, o que me valeu a reflexão:

Em que direção corre o tempo?
Para trás ou para frente?
 
O tempo não corre, tola.
Tu é que te enganas sempre,
pois o sempre te contorna,
te deixa tonta, sem leme.
Pensando que o tempo se move,
te moves, à toa, no tempo…
Passado, futuro, presente
são uma coisa,  somente.
 
O tempo que vês agora
é pingo de eternidade.
Mudasses tu  tua lente
chegarias à verdade
tão clara, tão  reluzente,
tão simples, tão evidente.

Vamos viver este dia com o cuidado de quem  o admite único e irreproduzível.

 
 
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