12 abr

Deixando de lado bobagens como “comprinhas e sorvetes ” que estão longe de me definirem como pessoa, tema surgido em tolo momento de brincar com coisas sérias, vamos, nesse domingo de Páscoa, que quer dizer passagem, fazer uma passagem para algo, a meu ver, mais consistente.

Há bastante tempo venho querendo conversar com vocês sobre um ícone da nossa literatura –Grande Sertão: Veredas.
N
ão sou especialista, nem o toquei com dedos técnicos ou analíticos
Mas o vivi com o coração e o entronizei em mim, completamente apaixonada.
Conhecia-lhe a fama. Mas guardava-o à distância, como se temesse entrar em terreno sagrado.
Até que me revesti de coragem. pé ante pé, aproximei-me.

Era um livro emprestado e, como manda a boa educação, abstive-me de romper sua virgindade… e nenhuma anotação fiz. Costumo ir fazendo intervenções, quase dialogando, com o autor ou com o tema, à medida que vou avançando na leitura…mas, como o livro não era meu, mantive-me proibida.

Não é um livro fácil.
Um romance em forma de relato.Pode-se dizer, um monólogo de alguém que encontrou um atento ouvinte ( que não emerge explicitamente) e Riobaldo Tatarana, agora fazendeiro, ex-jagunço, confiando na memória, “viaja” pelo seu próprio passado ao ritmo das lembranças não coordenadas pela coerência cronológica.

É aí que a coisa pega.
Um caleidoscópio das mais variadas cores…sombrias, ou luminosas, onde o leitor vê-se totalmente hipnotizado, tentando não perder o prumo.

“O narrador parece experimentar vários rumos, embrenha-se num atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se num labirinto de episódios desconexos.” (Paulo Rónai)

Ouso dar-lhes um conselho:
Não entrem nessa caatinga plena de espinheiros, cactos, boqueirões, envolvidos numa aridez cheia de traições, demônios, friúmes, inseguranças e esperanças, não entrem sem um bordão.
Tenham consigo um lápis e vão registrando, nas margens, ao lado das expressões que lhes calaram fundo, algum comentário pessoal. Ou vocês correm o risco de ter que lê-lo sete vezes seguidas ( como eu o fiz) só para reeencontrar as pérolas que somem em 624 páginas.
Penei muito, até receber ordem do dono do livro (meu irmão), permitindo-me fazer meus registros, fazendo-me situar melhor entre as magníficas considerações de João Guimarães Rosa.

Agora, minha relação com a história de Tatarana e Diadorim possui uma certa intimidade que me dá o direito de admoestar, inconformada, a postura da protagonista.
Ah Diadorim, podia ter sido diferente… ( mas aí não haveria Grande Sertão: Veredas).


Veredas do Grande Sertão

Ah! Diadorim…
Foste intransigente demais.
Dia após dia, noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura…
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.

De quem queria te tocar
te falar
te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível,
te servir
te acariciar
estar sempre ao teu lado
passar as mãos em teus cabelos

te fechar os olhos, te ninar…

cantar, talvez , uma canção de amigo
para que pudesses dormir ao seu abrigo,
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.

Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo, um passarinho.

Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o demo…
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas, o sol da estrada.

Ah! Diadorim,
Não há perdão para tamanho sacrifício,
Não há perdão para tanto desperdício.



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