…Ainda João Guimarães Rosa e o seu sertão…

18 abr

Mais um pouco de Guimarães Rosa…

e lá vamos nós acompanhando Riobaldo Tatarana, pelos grotões do sertão, lá onde “cobra desfecha desferido, dá bote…(…) onde ruindade enorme acontecia…(…) onde, sem querer, a gente rosna…”
No oco dos grotões ” há coisas medonhas demais..”.(… ) e aprende-se que” dor do corpo e dor da idéia marcam forte…”
Mas é lá que também se descobre:
” …o mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas estão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior .”

E ainda:”…só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos.”

” Vivendo se aprende; mas o que se aprende mais, é só fazer outras maiores perguntas…”

Lá, nas securas nordestinas , Tatarana pode chegar à conclusão:
” Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Qualquer pergunta de Tatarana, ele mesmo a respondia…parece-me que seu interlocutor, eternamente silencioso, estava abismado demais para se manifestar.
…E, em determinado momento, Tatarana , confiando que ” qualquer saudade é uma espécie de velhice” , cisma sobre:
” Quando é que a velhice começa surgindo de dentro da mocidade…”

Ele não me perguntou, mas eu me arvoro, por autoridade própria, em responder…

Quando…

É quando a dor se entranha,
se intromete num viver,
cria raiz, sem licença,
não se considera estranha,
resiste de ir embora
sabendo ser, ali, seu porto,
ali seu ponto final?

Ou quando o branco carece
de cobrir todo o cabelo,
nevando sem dó nem pressa,
no domínio do inverno,
que traz seu manto fatal,
desconsiderando a mente,
moendo o lembrar, lentamente?

Quando as rugas se definem,
riscando um mapa ou uma teia,
marcando o rosto tristonho,
cobrando tempos vividos,
lembrando como num sonho,
rios, córregos, riachos,
outrora já percorridos?

Velhice…
Parece-me ser muito mais
que somente estes sinais
que acompanham toda gente.
A velhice chega, sim,
encobrindo a mocidade

…quando o olhar já não faz grude
com o luar…
Quando o coração já não estremece
com o amanhecer…
Quando incomoda o canto do sabiá…
Quando a justiça tanto faz de acontecer…
Quando o amanhã já não traz
o ímã de sonhar…
Quando o olhar já não procura
um outro olhar…
Quando alguém se vê cansado de viver…

Mocidade há
quando ainda se acende o olhar…
Quando a admiração é lei suprema…
Quando as mãos ainda se abrem…
Quando o coração ainda se aquece…
Quando há vontade de cantar…
Quando a fé ainda teima…
Quando o amor ainda floresce…
Quando a criança, em nós, ainda cresce!

…e aí está a minha ousadia em dialogar com o poeta…
Falta somente chamar a atenção para algo muito importante:
…A linguagem, o estilo único e inconfundível de Guimarães Rosa…
Mas isso é um enigma que o leitor tem que desvendar sozinho.
Ler este livro é uma aventura que nos leva a “achar outras verdades muito extraordinárias.”

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Uma resposta to “…Ainda João Guimarães Rosa e o seu sertão…”

  1. Jucemir 4 de março de 2010 às 21:34 #

    Para Dinah.

    As duas últimas estrofes chegaram muito tarde, ele se suicidou em 1916, aos 26 anos.

    Curiosidade: o poema é posterior ao “Baixo Gávea” ?

    Jucemir

    Jucemir | 18.04.09 – 10:34 pm | #

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