Arquivo | setembro, 2009

Cacos e Mosaicos

25 set

Queixa da garrafa

Cruel corrente marinha,
Retirou da minha rota
a ilha, até então a mais fiel.

A noite esqueceu até
de ir encontrar o dia..
Ficou esperando, fiel, a poesia.


Misteriosa paisagem
Se perto dela estou
dentro dela
sou.
Se longe dela me encontro,
ela está dentro de mim.


Dá-me grande pesar
o pesar científico
– ele se pretende unívoco!

Sofrer,
já sofri o suficiente
Agora,
prefiro viver contente.

Por mais que eu refletisse
Por mais fundo que eu fosse (descobri)
Nada sei do vasto mundo

Nada sei do vasto mundo
A mim me basta o espanto
do mundo que existe em mim.

Viver,
Desafiar limites


Recriar instantes,
Destilar a dor,
Amar o amor.

João e Maria

19 set

Um verdadeiro furacão passou pelo jardim onde supostamente, e num rasgo de fantasia, costumo encontrar meus leitores ao espalhar meus versos.
Tudo se acabou, as flores e plantas desistiram de lutar contra
uma construção que as contornava.

Atualmente tento a reconstrução.

E convidei João e Maria a fazerem parte do contexto…e aí eles estão.E, para eles, escrevi um recadinho de boas vindas.

JOÃO E MARIA

Eu os resgatei do destino cruel
que os espreitava.
Já não precisam temer…

A brisa e o sol os revestem.
Sem grades, sem escuros,
Veem somente as sombras
desenhadas pelo sol, nas folhas,
ao variar das horas.

O perfume das flores
dá colorido ao ar que respiram
…e os alimenta.
“Hoje eles vivem na minha aldeia comigo…”
Crianças de riso fácil,
gostam de apreciar o céu
que muda de cor do raiar ao raiar do dia seguinte.

Entre os seixos rolados, alvíssimos,
eles brincam com a chuva e o vento
…e sonham…

Sonham que assim será
para todas as crianças, um dia…
Sem abandono
Sem bruxas famintas
Sem caminhos perdidos
Sem a crueldade adulta.

E neste cantinho do jardim, ainda em transformação, quero encontrar o João, a Maria e você…
Talvez livres do sufoco que envolve a nossa realidade, às vezes tão desencantada.


A Justiça no Tribunal

11 set

Exposição Salvador 10-09-09 007

Momento da Criação

2 set

Ah, a importância de renovar, de renovar-se , de construir ou apenas reconstruir!
É sentir a vida pulsar e vê-la fluir ao encontro de um futuro melhor.

Podem não acreditar…em apenas UM dia aconteceu a ressurreição. O meu jardim reviveu! ( Depois de ser violentamente atingido por uma construção à sua volta).

O dia começou cedo – uma visita aos hortos para pegar o adubo e a grama. Mas,
eu não seria Eu, se saísse de lá somente com isso.
Meu olhar percorria a variedade de cores e formas…e entrava em êxtase.
O amigo-jardineiro que me acompanhava sorria e me incentivava concordando com os meus desejos. Mas, às vezes, se assustava: ” Você tem certeza de que isto está dentro do seu orçamento?” Mais ou menos…estava disposta a me arriscar um pouco.

Ao meio-dia conseguimos encher o Celta até o telhado ( só de grama eram dez metros…quarenta placas! ) e voltamos para casa. Aí, um trabalho de titãs nos esperava. Nos descabelamos (ele menos, pois é carequinha) até às sete horas da noite.
Arrancar o que precisava sair…Revolver a terra…Alimentá-la com torta de mamona e adubo orgânico e ir, aos poucos, definindo o local das novas plantas. E o cuidado regenerador com as plantinhas que já ali se encontravam e que precisavam ressurgir em sua plenitude.
Meu Deus! Que imenso prazer, que entusiasmo, que delícia é possível sentir nessa tarefa de reconstruir, restaurar o que tinha perdido o brilho.
À noite, estava exausta… Tive de lavar folha por folha de algumas plantas que estavam cobertas de poeira de cimento ou tinta… e o verde reaparecia, maravilhoso.

O pequeno terreno foi recortado em dois níveis. O mais baixo só para a grama, que deveria se tornar um tapete. O nível mais alto seria o palco de exposição das “pedras preciosas” da botânica. Flores e folhas de formato e cores os mais diversos…

Sei que precisamos atender ao período de adaptação do novo. Algumas plantas sentirão a mudança. Os antúrios, escolhidos com tanto carinho, nem resistiram à “viagem” da origem (horto) até o novo endereço…As belíssimas flores murcharam…o dia estava muito quente.
Não faz mal. A terra renovada está ansiosa para mostrar seu talento gerador de riquezas. Eu espero. Já aprendi a acompanhar a paciência da natureza. “Seu Paciência”, o jardineiro, já me orientou nesse caminho. Eu era muito impaciente. Tinha dificuldade de esperar.

Tudo que aqui relatei se refere a apenas um terço do espaço a ser restaurado. Ainda falta muito… justamente a parte coletiva, que é de uso dos moradores do prédio. Mas chegaremos lá!

Novamente ponho-me a ouvir Rubem Alves, um companheiro de reflexão sobre as coisas simples do cotidiano.

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera…Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas…Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu.
Pois, como disse o místico medieval Angelus Silésius:


Se, no teu centro
um Paraíso não podes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim.

Ele conseguiu realizar o seu sonho. E eu também. Agora, aqui , rebrilha a minha joia, à espera dos pássaros, das borboletas, dos besouros…

“O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso.” (Bachelard)

Quando eu ainda alimentava o sonho de morar na terra que herdei, terra árida, onde só medrava a piaçaveira, palmeira da qual se tira a piaçava, ou piaçaba, aquela fibra de fazer vassouras, eu descrevi um ideal :


Momento
da Criação

Tivesse eu, agora, a chance de escolha,
sei bem o que me faria feliz:
Um pedacinho de chão ,
que nem verde precisava ser,
pois verde eu o faria em pouco tempo.

Bastava ter comigo um deus.
Um deus que exerceria
a primeira profissão que este mundo conheceu.

Um cuidadoso jardineiro,
bem grande e forte,
para vencer as pragas
e os riscos que correm as plantas.

Grande e forte, mas cheio de atenção
e de ternura ao tocar as flores.
E, em torno de nós dois,
iria se estendendo o Jardim do Paraíso.

Vencendo dores, tristeza, solidão,
o tapete de cores
iria encantando a natureza,
fazendo cantar a vida.

As pessoas, avisando umas às outras,
se aproximariam,
num misto de encantamento e magia,
e – percebendo o incrível acontecimento-
admirando tudo, agradeceriam.

…E, sorrindo voltariam aos seus lugares
para transformá-los , também, em Paraíso.