Arquivo | dezembro, 2009

ÚLTIMO DOMINGO DO ANO!

27 dez
Domingo

Hoje é domingo

Dia do consagrado.

Tudo deveria estar

no lugar mais adequado.


O sorriso no rosto das crianças

dos velhos

e sobretudo dos adultos

– a eles cabe

a responsabilidade

do humor da humanidade.

A comida nas panelas

de todos os lares.

Um cobertor para afastar o frio

na necessidade.

Águas limpidas serenas

correndo em todos os rios

– aí estão para matar as sedes.

As aves voejando em céu de anil

cantando colorindo espaços.

A chuva caindo onde fosse preciso.

Flores espontâneas

em todas as campinas

brisa leve e limpa

fazendo-as dançar.

Deveria haver

campos floridos sim

circundando todas as cidades.

Uma oração em cada pensamento

e a prece sendo

de agradecimento.

Que pena!

As coisas não estão assim!

Melhor então

que a prece seja

pedido de perdão.

Fernando Pessoa…e um encontro na Tabacaria

12 dez

Minha nossa!

Tudo que escrevi há alguns dias passados (ANO NOVO), me pareceu algo otimista…uma mensagem cheia de vontade de viver e de buscar o positivo da vida…E de admirar, na palma da mão, o faiscar das gemas que encontramos ao caminhar.

Porque as encontramos, sim!

Mas, em alguém, para minha surpresa, o texto provocou efeito contrário.

(Ah, Aline, a Dichte, a densa, minha amiga!…)

Despertei em Aline um sentimento de perplexidade e desconsolo. Escreveu-me ela, e pediu-me que publicasse. (Meu respeito à bipolaridade da vida concordou!) Pelo que eu percebo é a vida a causa primeira, o princípio básico, a razão inicial do transtorno bipolar.

Eis Aline:

“Sinto muito não acompanhar você em seus sentimentos. Aliás, não sinto nada!

Ou melhor, sinto!…com Fernando Pessoa:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
…………………………………………….
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum,talvez tudo fosse nada.
……………………………………………..
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam a mesma coisa , que não pode haver tantos!
Gênio?
Neste momento cem mil cérebros se concebem, em sonho, gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe, nem um.
………………………………………………….
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado no peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda , ainda que não more nela.
……………………………………………………
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta, ao pé de uma parede sem porta.……………………………………………………
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
e o resto que venha, se vier,ou tiver que vir, ou não venha.
……………………………………………………..
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos,

eu invoco a mim mesmo e não encontro nada.

…e este Fernando Pessoa me fez declarar, em instante, não amargo, mas…lúcido:

  • Não posso desligar o som.
  • Se o fizer, escuto o respirar,
  • o que pode me fazer acreditar que vivo, o que não é verdade.
  • Como pode estar vivo quem nada tem a esperar?
  • Quem passeia em nebulosas sem sentido,
  • Quem, diante do mistério, não o consegue decifrar?
  • Quem, ao nascer, foi carimbado:”MORTO”
  • Quem, embora ande, coma, durma,
  • não passa de um aborto que sonha que está vivo
  • e se espanta ao não se abrirem portas quando ele passa desejando entrar…

Amiga minha, agora quem fica desolada sou eu…não te quero assim…

Mas, se te consola um pouco, quero dizer que te compreendo.

Também eu (e creio que todos nós) tenho os meus momentos de lucidez…que brilham em noite escura:

E o “velho” Fernando esclarece:

Fiz de mim o que não soube

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era

e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi no espelho,

já tinha envelhecido.

Nem o próprio poeta vive eternamente neste sentimento de ”condenação ao degredo”.

Tem ele, seus impulsos bastante entusiastas:

Depois de amanhã serei outro,

A minha vida triunfar-se-á,

Todas as minhas qualidades de inteligente, lido e prático

serão convocadas por um edital…

Então vamos pular o amanhã e nos envolvermos diretamente com o depois de amanhã!!!

O POETA… E A MENTIRA

10 dez


Nem um único poeta merece confiança.

Tenho absoluta (quase!) certeza: é essencial que se desconfie da sinceridade poética de todos eles.

CHICO BUARQUE mente…e assume isto com uma displicência estarrecedora. Quem o ouve cantando “Cecília” e o crê tímido e apaixonado, se assusta ao vê-lo dizer, com toques de ironia e um risinho debochado:”…as minhas [ mulheres] são todas inventadas!”

FERNANDO PESSOA ?…um fingido contumaz!

MANOEL DE BARROS fantasia :

” O olho vê, a lembrança revê,
a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo”…
………………………….
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.”

MÁRIO QUINTANA inventa:

Eu já escrevi um conto azul, vários até.
Mas este agora é um conto de todas as cores.
Sim, porque era uma vez
uma menina verde
um menino azul
um negrinho dourado
e um cachorro com todos os tons e entretons do arco-íris.
Até que,
devidamente nomeada pelo Senhor Prefeito,
veio ao seu encontro uma Comissão de Doutores
-todos eles de preto, todos eles de barbas, todos eles de óculos
E,
por mais que cheirassem e esfregassem os nossos quatro amigos,
viram que não adiantava nada
e puseram-se gravemente a discutir se aquilo poderia ser mesmo de nascença ou…
– Mas nós não nascemos – interrompeu o cachorro – nós fomos

inventados! “

E Quintana conclui: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.”

A grande CECÍLIA MEIRELES também mente:

“Não acredite em tudo
que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.Quando não parece, é muito,
quando é muito, é muito pouco,
e depois, nunca é bastante…”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, fazendo ressalvas à Iuca, que prometeu florir novamente em janeiro ( e floriu!), ressalta o universo mentiroso daqueles que prometem e não cumprem , não esquecendo de incluir a si mesmo em tal universo:


“Muitas promessas não foram cumpridas nos últimos doze meses
.
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado,
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara-de-pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
‘Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota…’
Fez? Pois sim, seu Serafim! ”

Mas ninguém mentiu tanto quanto FLORBELA ESPANCA, mesmo quando pensava falar a verdade:

“Chuva…tenho tristeza! Mas por quê?!
Vento…tenho saudade! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!Ó chuva !Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura
Digam isto que sinto que eu não posso!!…”

De sonhos e expectativas construiu castelos inimagináveis… e transbordou na verdade de uma insaciável fome de Absoluto. Reconheceu em si, e nos outros, a impossibilidade do amor eterno :

“Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!”

E, no entanto, ela mesma morreu de amor…Amor não correspondido.

VINÍCIUS DE MORAES teve a desfaçatez de cantar aos quatro ventos ( e levar a vida inteira provando o contrário!):

” Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar!…”

O poeta precisa mentir para que o mais profundo de si seja revelado!Se “eles” tão gente fina
mentem tão tranquilamente
Por que eu, que não sou nada,
devo ter remorso ou pena
de sonhar sonho acordada?

Minhas palavras não são uma burka a esconder o que sinto.
São aquele sutilíssimo véu transparente com o qual as odaliscas pretendem proteger seu pudor…

(Mentira ou Verdade?)




ANO NOVO

4 dez

Fim de Ano!

Acho pouco simpática essa obrigatoriedade de voltar-se sobre si mesmo e sua própria trajetória para definir-se e definir rumos para um suposto “novo caminho” que se abriria com o novo ano .

Enxergo melhor uma continuidade exigente de cotidiano enfoque, para que não se percam (ou se percam!) oportunidades surgidas a cada dia.

Pensar diferente disso é miopia.

Entretanto…vejam só!…de repente, me surpreendo me auto-analisando…
É verdade!…Sou movida a paixões…de todo tipo.

Ao trabalho sempre me dediquei com total interesse, motivada por um prazer e um entusiasmo que só teria uma palavra como definição: Paixão.

Depois de adulta, com as filhas já beirando a adolescência, envolvi-me com a Filosofia, de tal maneira e com tal entusiasmo, que a nossa turma ( marcada pelo mesmo ânimo) era chamada de ” os fanáticos frenéticos”. Pura Paixão !

Também o desvelamento dos mistérios transcendentes me lançaram em busca de maiores esclarecimentos num Instituto de Teologia, no qual os meus colegas alcançaram a batina , ou seja, foram ordenados padres…e eu, professora do mesmo Instituto. O nome disso: Paixão !

Um simples violão bem tocado e uma voz agradável me direcionaram para um casamento…defino esse passo como: Paixão …pela Música!…

As Artes me chamaram a conquistar um diploma de artista-plástica. Foi um convite amoroso que atendi com Paixão !

De manhãzinha levanto para cuidar do que resta do nosso Jardim…gesto de Paixão, com muito gosto!

Vejo que cada passo da minha caminhada exige Paixão.

“Ser feliz é viver morto de paixão”
Vinicius de Morais in “As cores de Abril”

Só assim posso cantar a Vida.
Sou uma apaixonada por natureza.Não sendo assim, estiolo, enfraqueço…e morro!
Morro sim, vendo momentos passarem sem merecer o meu riso, o meu encanto, o meu canto!( Pode ser um canto triste…mas cantado com Paixão )

Olha quanta beleza
Tudo é pura visão
E a Natureza transforma a vida em canção
Sou eu o poeta quem diz:
“Vai e canta, meu irmão:
Ser feliz é viver morto de paixão!”

Que venha o Ano Novo!