Arquivo | maio, 2010

…E quanto à Solidão…

31 maio
Todos  conhecemos a esperteza de Sheherazade. Além de burlar a morte, ainda conquistou o amor de um Príncipe, antes irascível e descontente, tornando-o um amor de criatura. Mulherzinha inteligente! Suas histórias noturnas, o seu salvo-conduto.

Para o poeta, suas poesias, seus escritos são, também, uma espécie de salva-vidas. Se existe quem os ouça, ótimo! Se não existem ouvidos atentos, não importa. Ele é capaz de entender. No fundo, sua intuição lhe confere um saber incômodo:

Poesia… coisinha chata!

Somente ao próprio poeta arrebata!

Tola que fui, também aventurei-me na brincadeira de juntar palavras, pensando atribuir-lhes sentido. Nem percebi que vacilei entre sonhos, fantasias e realidade.

Com certeza as verdades do poeta não permitem métodos científicos de comprovação. Cada registro seu, tem seu momento próprio de veracidade, que pode diluir-se como a fumaça de um cigarro, no instante imediatamente posterior. Contudo, no seu momento próprio, ele é indiscutivelmente verdadeiro (para ele, o poeta!).

Agora, ao meu lado, percebo claramente “aquela” presença. Se vocês não a vêem, não me  responsabilizem por tal incompetência.

Ali, de novo, a companheira que não me abandona. Mesmo quando a obrigo a manter distância, é apenas uma distância hipotética. Seu olhar não se desvia do meu, ainda que eu finja ignorá-lo… ele está lá…sempre.

Ela sabe-se necessária porque é a única fidelidade.

Onde estão os outros?

O beija-flor que, que diariamente vinha ouvir música?

As flores…não!…as flores, não! O jardim inteiro…Há em seu lugar um terreno massacrado, com apenas alguns sobreviventes…como a “lágrima-de-cristo” que teima em florescer (sintomático!).

E aquela amiga? …Não sei.  Sumiu nas esquinas dos bares…

E Gabriela, com seu jeitinho de dona, ou de feitor, trazendo em seu poder (nos dois sentidos!) o chicote com o qual me dominava, e eu, submissa,  me deixava dominar, envolvida pelo fascínio daquela pessoinha de três anos, senhora e dona do meu afeto?

Mesmo meu tigre, que por motivos óbvios, não pode se afastar (é de mentirinha…), resolveu fazer silêncio, como que recusando-me a “palavra”…
E ela, a que não me abandona, preenche todos esses vazios…Ela, a solidão do espinho !
Nada posso fazer contra essa sensação de abandono. Os espinhos não são meus. São do outro .
O espinho próprio é corajoso, é decisão de alguém que não aceita proximidades…prefere ignorar qualquer mão ou afeto.
Quando o espinho é do outro, aí, só aí, é que há ferimento.E dor…e desconsolo…Dilacera.
A solução  que se impõe : corresponder ao único olhar realmente fiel. Estender as mãos, para que a caminhada não seja desesperada. Caminhar só (se é imposição extrínseca) é receita de envelhecimento precoce. É condenação antecipada, supõe desesperança, desânimo, cansaço…vontade de deixar escorrer sobre areia fervilhante qualquer seiva que ainda exista.
Nos labirintos  em que nos perdemos, a solidão escolhida é fundamental… solidão compreendida, aceita, acolhida, bem-vinda.
Olhar-se em seus olhos é ver-se.
Acompanhar-se de si mesmo… Pode até ser triste, mas consolador.

Para que  esta conversa não acabe sem uma mínima homenagem à POESIA, passo para vocês uma beleza à qual o  tempo não ousará, nunca, desqualificar:

AS DUAS SOMBRAS

Na encruzilhada silenciosa do destino
Quando as estrelas se multiplicaram
Duas sombras errantes se encontraram.
A primeira falou: -Nasci de um beijo
de luz: sou força, vida, alma, esplendor.
Trago em mim toda a ânsia do desejo
Toda a glória do universo…Sou o Amor.
O mundo sinto exânime a meus pés…
Sou delírio…loucura…e tu, quem és?
– Eu, nasci de uma lágrima. Sou flama
do teu incêndio que devora…
Vivo dos olhos tristes de quem ama
Para os olhos nevoentos de quem chora.
Dizem que ao mundo vim para ser boa,
Para dar de meu sangue a quem me queira.
Sou a Saudade, a tua companeira,
Que punge, que consola, que perdoa…
E na encruzilhada silenciosa do destino,
As duas sombras comovidas se abraçaram,
E, de então, nunca mais se separaram.
Olegário Mariano