Arquivo | julho, 2010

Uma outra vereda para o GRANDE SERTÃO

29 jul

Um simples toque no nome de João Guimarães Rosa e vejo-me arremessada ao encontro de seus inesquecíveis personagens do Grande Sertão: Veredas.

Um romance que li com avidez. E não posso me furtar ao prazer de relê-lo muitas vezes, na busca dos tesouros encontrados nas suas mais de seiscentas páginas. Renovado desejo de rever e repensar inúmeras afirmações de valor imenso, só cabíveis na mente de um autor excepcional e que se destaca, além disso, pela originalidade do estilo.

De posse de uma bateia, eu preciso, volta e meia, recolher as pepitas de ouro escondidas naquele filão inesgotável.

Ali, o Bem e o Mal se digladiam com astúcia e fúria e, não raro, mudando de receptáculo. Sim, porque a generosidade, o companheirismo, a valentia, a fidelidade, o misticismo, o amor, a dor, a justiça, o medo, o ódio, não têm dono certo. São parte de um labirinto, ou uma teia, que envolve todos os personagens.

É o redemoinho onde O Que Não Há, o Diabo, o Coisa Ruim, o Tinhoso se farta.

O próprio Tatarana dá a receita:

" …para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah, basta se olhar no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou de ruindade!"

Escrevo, hoje, para registrar uma injustiça que ficou pouco clara no tortuoso roteiro da narração.

Fácil é identificar o maldito da história; o Hermógenes. Para ele, parece não haver salvação. Nem um gesto, nem uma palavra, nenhum sentimento que revelem um mínimo de boa vontade em favor de alguém. É o emissário da morte inglória…o próprio Demo.

Não há dúvida sobre esse fato. Ele mata…e pronto!

Não importa quem seja a vítima…cruzou o seu caminho, atrapalhando seus planos, inimigo ou inocente, o destino está selado! "Hermógenes, homem que tirava seu prazer do medo dos outros, do sofrimento dos outros".

Não é ele que quero colocar no banco dos réus.

Meus olhos se voltam para Reinaldo, mais conhecido como Diadorim.

É. Diadorim, sério, bonito, gostando de silêncios [o que demonstra introspecção] braços alvos, e rosto corado, grandes olhos verdes, finas feições… assim o descreve Riobaldo. Um Riobaldo apaixonado, um Riobaldo torturado por um sentimento condenável, um jagunço valente, cabra macho cuja coragem fora conquistada a duras penas, nas temíveis batalhas do cangaço…Um homem tão perturbado que chega a sonhar com o objeto do seu delírio passando sob o arco-íris.

Ah! Assim estaria livre daquele feitiço, e livre para realizar o seu amor.

Diadorim sabia! Sabia o que se passava no íntimo do seu "amigo". Sabia…mas silenciava…

Escondia-se sob o manto de tenebrosa mentira.

Aquela infeliz podia ter mudado o destino dos dois.

Podia ter encontrado o momento próprio de revelar-se.

Podia, quem sabe, numa noite de lua, ter saído das águas de um riacho, como uma deusa grega, uma Afrodite do sertão, vestida da nudez reveladora…mas, não!


No meu entender, ela foi o maior algoz de toda a trama!

Em nome de uma vingança, assassinou o Amor…

Bato o martelo!

Fim do julgamento: Culpada!

Matar o Amor é tão cruel quanto matar pessoas.

O desprezo indefensável de Diadorim fez de Riobaldo o eterno sofredor que revive, com a interferência de cada novo leitor, o seu tormento, naquele lamentoso depoimento ao ouvinte fantasma.

Justifico o veredicto:

Ah! Diadorim
Foste intransigente demais.
Dia após dia,
noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura …
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.

De quem queria te tocar,
te falar, te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível
te servir
te acariciar…
Estar sempre ao teu lado
passar a mão em teus cabelos
te fechar os olhos
te ninar
cantar, talvez, uma canção de amigo
para que pudesses dormir ao seu abrigo.
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.
Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo um passarinho…

Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o Demo…
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas,o sol da estrada.

Ah! Diadorim…
Não há perdão para tamanho sacrifício
Não há perdão para tanto desperdício.



P.S. Claro que se a história terminasse com um happy end o romance não passaria de um folhetim semelhante a outros tantos.

Maria Deodorina criando filhinhos – um a cada ano – criando galinhas, plantando hortaliças e flores, enquanto Riobaldo – não mais Tatarana – deitado numa rede, cofiando o bigode, apreciaria o grande plantel de animais ultra selecionados que amealhara com seu trabalho, ajudado pela polpuda herança e pelos amigos influentes.

Felizmente, J.G.Rosa não me pediu opinião.

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Mário Quintana, um Mestre.

20 jul

Senhoras e senhores,
continuo minha peregrinação pelas "causas indefensáveis".

Talvez esse tempo de ventos uivantes e uma chuva que não passa, nos obrigue a uma interiorização com sabor doentio, quando, então, o nosso "porão" sofre um processo de desinfecção obrigatória.
A água que cai, vem lavando recantos esquecidos. É um momento próprio para reconsiderar…

Minha terra é chamada "Ilha da Fantasia" devido ao sol e à música que nela imperam…são sua alma e seu sangue…

De repente, uma sombra recobre tudo. E o sentimento da gente vai junto…E o jardim também…

Pensando no jardim e nas pessoas, levanto mais uma bandeira de reconciliação.


Vejam o que diz
Mário Quintana:

O que mata um jardim
não é mesmo alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim
é esse olhar vazio
de quem por ele passa, indiferente.

… e eu completo:

Creio que também
é esse olhar que mata
as pessoas que perpassam
à nossa volta, mendigando atenção
…e nem são vistas!
O olhar indiferente
as torna transparentes
…e mortas!

Dedico esse post a Bruna… uma pessoa que a vida se incumbiu de maltratar e fazer dela um alguém que, por onde passa, sofre rejeição.
Define-se como "ela", embora tenha nascido "ele".

Bruna copy
Aproxima-se das pessoas para pedir ajuda, mas o seu aspecto não colabora. Quase sempre sujo, dentes em último estágio de destruição, cabelo desgrenhado, uma magreza inquietante, reveladora do mal que o consome.

Quando o recrimino pelo seu aspecto desleixado , ele retruca:
"Mãe, não tenho nem dinheiro para comprar sabão para lavar as minhas calcinhas!…"
Tenho certeza que, apesar de tudo, ainda lhe resta uma boa dose de humor:
"Estou operada… retirei o útero!…"
Ele se torna grosseiro e até agressivo se lhe negam a esmola…mas não ultrapassa as palavras.

Eu já sofri muita incompreensão pela atenção que lhe concedo.

Não poderia agir diferente!

Ele retribui vindo me ver, sempre tomado banho, cabelo cortado, roupa lavada…só as unhas estão sempre horríveis! (mas ele as esconde para que eu não as veja…)

Um dia ele me disse: "Sabe por que eu gosto da senhora?"
E ele mesmo respondeu: "Porque a senhora me olha!"

Bruna me adotou como "mãe"… e não se sente nem um pouco incomodado em apresentar minha filha como sua "irmã", onde quer que a encontre…
Fala isso com uma certeza comovente.

Eu bem sei que o rumo que sua vida tomou tem muito da sua própria responsabilidade. Mas tenho certeza maior ainda – muitos foram os que colaboraram para transformar uma criança linda e saudável, ou o cozinheiro competente que outrora ele foi, naquele coitado que depende da compaixão dos outros.

Uma última palavra

Guimarães Rosa:

"Eu sei: nojo é invenção do Que Não Há para estorvar que se tenha dó."

Em nome da Justiça

14 jul

Mais uma vez encontro-me na situação premente de continuar em defesa das "injustiças injustificáveis"(!).

Creio mesmo que, no meu histórico, está faltando uma página deveras importante: advogada das causas impossíveis…mas aí eu tomaria o lugar de um santo muito respeitado e requisitado – Sto. Expedito.

Vamos aos fatos.

Conheço um senhor que, continuamente, não é levado a sério. Fazendo parte de um grupo de pessoas sérias (Exupéry as reconhecia há long, long time ago !) sempre que o meu quase amigo fazia alguma colocação, ou defendia alguma tese no ambiente grupal, os companheiros rejeitavam e até condenavam seus pontos de vista. Achavam-no não apenas irônico, mas até debochado…

Ele não aceitava tal juízo, que considerava injusto. Não posso opinar com segurança uma vez que não faço parte do seleto grupo (acho que não sou uma pessoa séria o suficiente!). Sendo assim não me cabe o direito de aferir ou compreender o mérito ou o demérito das suas ditas irreverências.

Ora vejam! Um dia ele se sai com essa: "Senhores, eu amo o som da minha descarga!"

No ambiente antisepticamente ético, de moral ilibada, politicamente correto, o anúncio caiu como uma provocação!

Era o absurdo levado a extremos. Era a exacerbação do deboche. Era a explosão da picardia.

E, como nunca, ele se viu acuado pelas disposições em contrário.

E ele ficou triste!

Sabendo do ocorrido, revesti-me com a túnica da defensoria pública.

E pensei…pensei…refleti…até atingir o âmago da questão!

Foi então que a minha alma de poeta veio em seu socorro, retirando da sua reflexão o sumo da verdade que ela contém:

A Descarga

Talvez por isso

eu ame o som da minha descarga.

Ela me livra, me dispensa

daquilo que, em mim, é excrescência.

É por ela que

de novo, me sinto novo.

Há um renascer a cada golpe

de limpeza dos resíduos.

Um passo novo…

um recomeço.

Uma retomada de caminho.

Fonte de novas escolhas.

Ao esgoto como o mau cheiro

que pode invadir meu ninho.

A água que corre

me livra de pecados escondidos.

Liberta-me de amores complicados.

Afasta-me de sonhos impossíveis

…de muita carga pesada.

…de dores não confessáveis

…sobras não aproveitáveis:

mágoas, sustos, tristezas, vulgaridades.

É, a descarga, a esperança,

o albor de nova era,

certeza de novo chão

…ela me torna outra vez confiante!

Por ela meu corpo se recupera

e minha alma se eleva.

Como podemos perceber, basta um pouco de boa vontade. Afinal, o som da descarga traz, em si, sentido semelhante ao som das trombetas do juízo final: Após aquele som, a redenção!

Paleta de cores

12 jul

Às vezes somos surpreendidas com afirmações que fazem cócegas na nossa racionalidade e exigem uma resposta urgente. Sou amante das cores! Gosto de observar o mundo através de uma lupa colorida! Quando as cores ainda não foram nomeadas, eu não me abstenho de suprir essa deficiência! Mas algumas denominações já são de domínio público e não podem ser esquecidas, de forma alguma!!!

Daí que saio, com prazer, em defesa das cores que iluminam e fazem do nosso mundo uma riquíssima paleta de pintores. De capa e espada, eis-me aqui, para encerrar essa injustiça!!!!

Aliás, ultimamente, vejo-me exercendo, constantemente, a função de JUSTICEIRA!  Deus me valha !!

 image

Estou pasma com a carência da escala das cores!!!!!!!!!

Sem muito pensar, de estocada, sou capaz de acrescentar algumas a mais…

[Sem qualquer alusão aos últimos acontecimentos relatados pela multi-imprensa, só na faixa dos vermelhos, acrescentaria:]
vermelho sangue
vermelho sangue-pisado
rubor de virgem
magenta (não é nojenta!!!)

roxo hematoma
roxo defunto fresco

rosa-bebê
rosa barbie
rosa antigo
rosa moderno

salmão quase noite
salmão amanhecer

laranja-doce
laranja azeda

amarelo-ouro
amarelo prata((!)
amarelo gema

cinza-prata
cinza céu nublado

cinza paletó-velho
cinza cinza (lembrando os restos das fogueiras recém-queimadas!!!!!)

verde bandeira
verde abacate
verde mal-estar
verde vontade de vomitar

Oh!!! Os  azuis são inexprimíveis pois definem a PERFEIÇÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Pensamentos… em um dia chuvoso

8 jul

Durante toda a minha vida tentei, se não eliminar, pelo menos identificar as injustiças do cotidiano…e elas são tão várias! Um exemplo clássico de injustiçado é o urubu. Considerado feio, as pessoas não lhe reconhecem os méritos e nem percebem a extraordinária beleza do seu voo incomparável.E que dizer da sua função precípua de recolher e “engulir” os resíduos que todos rejeitam?

Deixem-me, hoje, dar a ele o lugar que lhe cabe, ao menos no meu analógico imaginário.

Ao Urubu

Quero trazer-te, sim,

para dentro de minh’alma.

Terás um farto banquete.

Como toda gente,

tenho cá dentro,

em recônditos espaços,

carniças que busco esconder,

sentimentos de odor insuportável

…não os quero conservar!

Vem, és tu o meu remédio.

Preciso limpar meu ego,

recuperar a infância sem temor,

sem mágoas, sem vaidades, sem rancor…

e então poder flanar contigo

em alturas memoráveis,

em viagem admirável,

em voo contemplativo

sobre o reino de além-dor…

Vendo a mim mesma

como flor que acaba de se abrir

e a ti como meu libertador.

Essa poesia me traz de volta a um acontecimento inesquecível que guardo na memória.

Certa feita, estava com um grupo amigo em conhecida praia da nossa Bahia.

Sob frondosas amendoeiras, em um rústico restaurante, fui “apresentada” a um Urubu, que passeava galhardamente pelo chão, como se fosse um galináceo qualquer. Teria caído do ninho e alguém o recolhera, cuidadosamente, e o estava criando como bichinho de estimação. Pelo visto ele adorava sua inusitada situação.

Aproximei-me, olhei-o bem nos olhos, sorri…Com certeza absoluta, ele captou toda ternura que coloquei naquele olhar…e correspondeu!

Passou a me seguir enquanto brincávamos de “O Sombra”…Eu, na frente, e Ele me acompanhando…Em questão de segundos nos tornamos um espetáculo para as pessoas em volta. Entre divertidas e espantadas elas nos olhavam impressionadas com aquele show incomum.

Mas o momento mágico teve fim, pois eu devia continuar o meu caminho, abandonando aquele afeto surgido inesperadamente… fortuito, mas profundo. Eu o deixei , sabendo que não o veria nunca mais…tal qual a amizade entre um conhecido Pequeno Príncipe e uma Raposa…ou um Aviador e o dito Pequeno Príncipe…

Fui embora,mas aquela figurinha é, hoje, um ícone no altar da minha memória afetiva. Guardo-o com carinho e faço desse Urubu um amigo e um conselheiro.


…Coisas da Vida…ou da Imaginação…


É compreensível que os Mitos, as Religiões, as Artes e a Ciência da Alma tenham conseguido rastrear e identificar essa Entidade que atua no eu-profundo dos seres humanos e da qual meu Urubu é apenas um símbolo.



Mudando de assunto.


O triste cotidiano tem invadido a minha privacidade com notícias da minha terra, as quais me deixam muito abatida. O Nordeste parece ser um “filho enjeitado” com o qual tudo pode acontecer.


Pasmo nordestino

Que enormidade de chuva

vem caindo sobre a terra.

Parece que o céu decidiu

afogar de uma só vez

todas as mágoas do mundo.

Nesse tempo desolado

onde se escondem as avezinhas

tão frágeis, tão pequeninas?

Não é só dia chuvoso,

é arremedo de dilúvio!

Um dia há que parar…

não se pode viver assim

sob ritmo tão triste,

melodia de um só tom,

suprema monotonia

…e chove…chove…chove…

Até as plantinhas dizem:

“Já chega!”

Por que tem que ser assim?

Ou sol abrasando tudo

ou a água inundando o mundo?