Arquivo | outubro, 2010

Uma história de amor

29 out

Permitam-me dividir com vocês algo inusitado, e absolutamente não desejado, que me aconteceu.

Fui adotada por um magnífico espécime de gato Siamês, com tudo que ele possui de belo e nobre.

Apareceu em meu jardim, e , em desespero de causa, avançou sobre a comida de Ninja, minha tartaruga, que por sinal se alimenta, entre outras coisas, de ração de gatos…. Magro, abatido,com olhar de “cão” abandonado, demonstrava estar perdido ou rejeitado.

O susto não me impediu de concluir: Ele precisa de ajuda!

Quem poderia negar o pedido expresso naqueles olhos tão meigos, de um azul profundo e misterioso?

Imediatamente o servi com farta porção do alimento em questão…e Ninja nem reclamou!

Pensei que a história acabaria aí. Infundado engano! Após comer com avidez, o lindinho ficou a me olhar. Eu estava quase conquistada…

Dia seguinte, ao acordar, como de hábito, fui ao jardim colher algumas flores.

Quem estava lá? O olhar!


Não satisfeito, Ele, o gato, veio ao meu encontro e, num gesto da mais absoluta sedução, ronronando uma melodia encantadora, enroscou-se em meus pés, acabando d

e me conquistar definitivamente!

Passados poucos dias já percebo que toda aquela encenação tinha um único objetivo: granjear o meu afeto.

Não sou volúvel nem inconsequente…tenho pra mim que qualquer pes

 

soa passaria pelo que eu estou passando, se pusesse os olhos sobre Ele.

Só de vê-lo coração se enternece!

No seu “rosto”(recuso-me a chamar de cara), na macia más

cara de veludo marrom-café quase atingindo o negro, eu vi refulgindo duas cintilantes águas-marinhas, de extraordinário azul transparente que nos conquista pela serenidade e delicadeza com que nos enfoca.

Creio que ali estava a mais rara combinação que a natureza poderia criar: um moreno acentuado envolvendo dois profundos olhos azuis! Haja coração!

A pisada solene, os movimentos lentos e estudados, lhe conferem nobreza somente comparável à dos felinos selvagens!

Hoje Ele mora em minha aldeia [casa] comigo” (F. Pessoa)… Vive em constante meditação. Faz do silêncio seu ambiente. Sobre a almofada, dorme bastante…mas adora ficar pensativo, piscando lentamente os olhos sedutores.

Vez em quando levanta e vem

conferir se ainda continuo sob o seu domínio…enrosca-se em minhas pernas, emite uma canção quase inaudível, olha nos meus olhos… e volta à preguiça, própria da sua espécie.

Os corriqueiros ruídos do funcionamento da casa não o perturbam. Ainda não sei se gosta de música. Observo-o. Quero muito que Ele seja feliz aqui.


O inesperado bateu à minha porta e eu abri sem restrições.

Acho que Ele veio substituir o Beija-Flor que se evadiu depois de dois anos de convivência afetiva. Prefiro acreditar que ele morreu…do que admitir que ele me abandonou.


Em nova (a)ventura… seja lá o que Deus quiser!

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Eu sou eu e minhas circunstâncias

18 out

Acabo de retornar da cidade de Ilhéus, onde fui votar…e quase esqueço de voltar!

Como de costume,gosto de escrever algo novo para manter o “diálogo” (quase monólogo) com meus companheiros de blog.

Motivada pela preguiça (quem sabe, talvez, nem por isso), resolvi transcrever um texto+poesia que publiquei em maio deste ano após um retorno da mesma cidade ,onde estive por motivos outros.
Vamos em frente!

*********

Vou passar alguns dias aqui em Ilhéus. Tudo que me diz respeito (com exclusão de boa parte da minha família) ficou em Salvador. Esta situação cria em mim uma razoável “crise de identidade”. Afinal, somos ou não somos o resultado daquela conhecida afirmação:”Eu sou eu e minhas circunstâncias” ?(Ortega y Gasset)

A necessidade do autoconhecimento é uma inquietação que nos acompanha desde o berço. Felizmente o avanço por tais veredas não resulta em um saber inteiro e irrefutável. Muito ao contrário. As facetas com as quais nos defrontamos são tantas, que o perfil resultante se apresenta apenas como uma aproximação do real ( se é que ele existe!).

A literatura não pretende dizer que sabe alguma coisa. Mas que sabe de alguma coisa.

Daí, num determinado momento, nos descrevemos sob determinada ótica…Basta que haja uma variação espacial ou temporal, ou psicológica, e o “alguém”que tentamos descrever se reveste de nova “roupagem”, e nova “persona” transparece…usando a mesma carteira de identidade. Funções, sentimentos, situações, objetivos, medos e desejos, se destacam como pressões e nos obrigam a retirar, de um velho baú mágico, as máscaras que precisamos e das quais, nem sempre, nos damos conta.

Mas…existem também , momentos de nos depararmos com um cansaço…um desconforto, um reconhecimento da inutilidade de qualquer esforço.

Feito a cebola
Não pintem meu retrato.
Pelo amor de Deus,
não pintem o meu retrato.
Não digam nada de mim.
O que pareço ser, não sou!
Também não sou
o que digo de mim mesmo.
Muito menos o que outros dizem…
Pensando me conhecer
derramam cores sobre o meu fantasma
pensando dali fazer surgir um ser…
Não sou! Não sou esse,
nem aquele que, supostamente,
aparece nas janelas da expressão.
Sou nada além do que ninguém.
Sou menos que a cebola
que, dispensando as capas,
vai vendo surgir o oco.
Sou menos que o camaleão:
sob a mudança de cores
ainda lhe resta uma essência…a mim, não!
Sou menos que o kabuki,
não sou homem nem mulher
…nem personagem…
As roupas, a maquiagem,
o pó-de-arroz, a máscara,
é o mais real que há…
Além disso, uma ilusão,
apenas encenação.
Não me pintem,
não componham um personagem.
Tudo o que venha a ser dito,
nunca revelará o papel que represento,
pois sob ele, o nada!
Tirem-me do palco…é o certo!

Depois das afirmações acima, será possível garantir que voltarei a escrever ? Ou que não voltarei?

Eu digo: a insegurança do terreno em que nos movimentamos, a areia movediça com a qual modelamos o nosso ser, não nos permite garantir NADA !

Chilenos…ELES sobreviveram!

13 out

Ainda somos humanos!… é a grande inferência.

Todos os prognósticos eram adversos porque o diagnóstico era aterrador.

As circunstâncias se acumulavam e se equilibravam numa fragilidade de castelo de cartas prestes a desmoronar definitivamente.

O assombro externo só encontrava similaridade ao provável estado de estupor dos principais personagens do drama acontecendo e da tragédia que se prenunciava.

O ineditismo do acontecimento não permitia previsões nem contra nem a favor. Mas as dúvidas eram avassaladoramente dominantes. As ameaças reais e imaginárias eram tais que poderiam paralisar e engessar a movimentação e a criatividade geradoras de solução. Um túmulo a quase 700 metros de profundidade era o desafio que se revelava como um problema a ser resolvido, numa atitude (quase) acima da capacidade humana. Em luta contra o tempo, a altura de um prédio de 220 andares deveria ser vencida para que o resgate acontecesse.

A cada momento as dificuldades iam-se revelando…e as dúvidas se concretizando.

Era necessária a perfuração…e o que seria encontrado?

Rochas indevassáveis, ou frágeis, além da conta?

Lençóis freáticos com  possibilidade de inundação?

Exalação de gases subterrâneos contaminando o ar já pouco saudável, no qual o oxigênio e a temperatura adequados teriam que ser manipulados e conseguidos  através  do conhecimento técnico da equipe de salvação?

As dificuldades eram tantas que ultrapassam o quase absoluto desconhecimento de quem lhes escreve, neste momento. Desisto de enfocar esses problemas uma vez que poderia derramar sobre aqueles que me leem um monte de palavras insensatas e bobas. Sou apenas uma escriba ignorante e emocionada. Dois atributos que não me conferem validade.

E aqui fico a louvar, admirar e bendizer os resultados obtidos pela equipe de salvação em todas as etapas  do processo.

Mas, perdoem-me, não poderia deixar passar em branco o sentimento que me dominou e me dominará por longo tempo, creio mesmo que por todo o meu sempre(tão limitado!) – Sinto-me honrada em fazer parte da comunidade humana! Se sou semelhante àqueles homens  que puderam conviver em condições não somente adversas, mas aterrorizantes.

Temos certeza que, nos primeiros 17 dias, a falta de perspectivas era a cegueira dominante àquele desafortunado grupo. Nada viam… nada sabiam… nada esperavam, talvez. E, no entanto não se encaminharam para a selvageria, para o desespero, para o desequilíbrio da certeza do desfecho trágico… “É impossível não ficar louco aqui dentro…” escreveu um deles. Contudo eles conseguiram conservar a lucidez.

Eles esperavam… e construiam, dentro de suas limitadíssimas possibilidades, o que lhes era permitido, para conservar e fazer crescer a sua própria hominização. Alguém já definiu: “…palavra que nenhum animal faria tal coisa…somente o bicho-homem seria capaz dessa conquista!”

Eram humanos, sim , lutando para tornar coletiva, ao seu desventurado grupo, a característica marcada pela solidariedade, pela empatia, pela compaixão, pela generosidade.

Cabe-me registrar o que sinto: sou humana, faço parte dessa honrosa categoria dos seres viventes da qual faz  parte  essa fatia que o mundo inteiro admira e aplaude.

Que as consequências advindas deste acontecido não venham diminuir a glória do inédito. Que o uso dos fatos não atinja o nível do abuso…em quiasquer dos vícios (econômicos, políticos, empresariais , midiáticos…) costumeiramente  vividos por uma humanidade  tão necessitada de bons exemplos.

Bom seria aproveitarmos , ao máximo, a lição!

Dinah… em tempo de RETORNO

11 out

Pressionada por diversas circunstâncias, estou a ponto de “voltar ao ponto de partida”. Retornar à minha cidade, de onde parti há vinte anos, também desejosa de  reconstruir-me em novas bases.

Quase toda a família já retornou, como avisou  uma das minhas irmãs:

“Os elefantes se sentem obrigados a  reencontrar as suas origens quando sentem a aproximação do Fim”…

Eis-me aqui, sofrendo as agruras de uma cidade que , generosamente  me acolheu  em tempo de suaves circunstâncias,  mas que a elefantíase do tráfego, o descontrole e o desrespeito às normas de boa convivência, o sumiço da afetividade sem restrições, o generoso estender de mãos acolhedoras sem exigir nada em troca está, cada vez mais, escasso.

Talvez a dificuldade esteja em minha maneira de ser,  que não acompanhou as mudanças que o “progresso” exige. Ou, talvez, o tal “progresso” não passe de um retrocesso!

Desenraizar-me novamente.

Arrancar do chão,

como se erva daninha fosse,

todo um esquema desenhado

(ao longo de um escasso tempo),

ambiente com carinho elaborado.

Cenário onde pude construir

e construir-me, no que me restava

de tempo útil e proveitoso,

inda que de produto duvidoso.

Partir de novo?

Recomeçar?

Sim,teria que ser recomeçar…

Partir do zero

porque não quero re-construir!

Em nada quero me apoiar.

Virar mais uma esquina do viver…

Abrir  novas janelas…

Uma nova brisa respirar

para que o cheiro do mar

me venha reanimar,

um novo alento

entrar por nova porta

e um colorido novo me sorrir.

Que louca!

Que tempo haveria

para um novo presente construir?

Enfim, vale a pena tentar!… E lá vamos nós,  em nova embarcação, e por antigos mares, navegar…


Continuando…

3 out

…E aqui estamos, tentando prever o final do romance medieval cujas características são facilmente identificáveis , uma vez que o esquema é recorrente em todas as histórias desse tempo, mas que ainda impera entre nós, apesar de nos considerarmos pós-modernos.


Eis os personagens:

O cavaleiro-andante, cruzado com pretensões de salvar o feudo. Tanto já fez, tantas refregas e justas já venceu, mas não consegue convencer nos seus propósitos… e se revela como o “cavaleiro da triste figura” sem força suficiente para conquistar o que pretende.


Há também a donzela ingênua e frágil que, do alto da sua torre de marfim, se esforça para derramar sobre o reino a sua ingenuidade e boa vontade para, com elas, exorcizar do mundo, a maldade e a corrupção. Canta uma bela canção em resposta aos menestréis que a querem salvar.


Mas a força da bruxa má é terrível. No seu modelo de dupla personalidade esconde seus fluidos malévolos com que pretende dominar e conquistar o poder. Quem viver verá.


Nenhum romance é completo sem o bobo-da-corte. Com trejeitos, cabriolas e ironias, com alfinetadas e intervenções sarcásticas obriga os poderosos a se encolherem, temendo suas investidas. É verdade que a sua pança é irrisória, mas contém bastante veneno, por isso chega até a assustar. (Ou não?!).


O romance continua com o final em aberto… ainda que (quase) previsível…

Quem viver verá…

DESCONSTRUÇÃO

2 out

De volta à minha bela e maltratada cidade.
Cheguei para exercer o digno direito de votar que nunca me pesou tanto, como gesto obrigatório que também é.
Na minha bagagem, Engov, sal-de-frutas, Dramin, mil e um antiácidos, outros tantos remédios para dor de cabeça, tudo isto em função de combater a ressaca do “dia seguinte”.
Tenho certeza, ao amanhecer, ao me olhar no espelho, constatarei aterrorizada:
“ Votei errado!”
Mas não havia alternativa… Lamentavelmente, qualquer que fosse o voto, deixaria muito a desejar. E permaneceria esta sensação de que deveria haver melhores possibilidades.
Sinto-me envolvida por uma onda de decepção e desesperança no que concerne à política do meu país.
Há poucos dias fui ao aeroporto. Já estava no elevador quando uma loura-resultante-de-salão entrou visivelmente agitada pela urgência de alguma situação que logo se esclareceu. Falava ao celular com alguém a quem ela dava ordens expressas:
“ Veja logo isso! Tem que ‘cair’ cem mil na minha conta. Os meus, são 100 mil reais! Devem entrar hoje, ainda! Vou conferir…” e por aí foi, explicitando a necessidade urgente de adquirir algo que poderia se esfumaçar no espaço, se não fosse resolvido logo.
De repente senti o ar do elevador se empestar com o mau cheiro de maracutaia.
Imaginei que a tintura do cabelo, os saltos altíssimos, a enorme bolsa de mau gosto (provavelmente necessária), a maquiagem exagerada (embora fosse de manhã), eram fruto de conquistas feitas com o dinheiro público!
Talvez eu esteja ficando neurótica vendo corrupção por todos os lados…Talvez os problemas ainda sejam convertíveis…Talvez o sistema político da minha terra brasilis não esteja tão doente…Quem sabe os doentes são os meus olhos desencantados…
Acho melhor começar a me proteger com a minha bateria de remédios, já! Agora!

As palavras a seguir foram choradas por motivos não políticos, em outra época, mas bem cabem no aqui, agora.

Transitar no submundo da mentira.
Sentir na boca o gosto amargo da desilusão.
Olhar em torno e ver somente bruma…
Não conseguir livrar-se da escuridão.
Camisa de força feita de espinhos
deixa sangrar, dilacerada, a carne,
ao menor movimento em busca da verdade.
Já não possuir sequer o próprio chão.
Ver sucumbir um sonho, quase realidade.

Onde encontrar no labirinto da mentira
um mísero ponto de apoio
que permita recomeço?
O pântano de lama
engole o mais supremo esforço
e nada resta
que mereça ser reconstruído…

Reconstruir o quê?
Nada sobrou para ser preservado.
O que ficou é tão desfigurado
que já sufoca o que de bom
havia na lembrança
e mata, sem remorso,
qualquer sombra de esperança.
Adeus sonho acabado, destruído.
Mal-vinda seja cruel desesperança.

De pé, vejo ruir aquilo
em que um dia acreditei.
De pé, eu me despeço
do sonho que sonhei.