Promessa é dívida

4 dez

Prometi que voltaria ao tema  “Minha infância”… Quando o caminho já se faz longo e a paisagem vivida vai aos poucos perdendo a nitidez, há sempre algo que fica indelével. Na maioria das vezes é algum momento admirável, lembrança que se reproduz com forte dose de encanto. De repente nos apercebemos sorrindo. O poeta define: “Vontade de ver de novo alguém sabido chamou saudade”, e outro completa com delicada poesia, falando de “um sonho lindo perdido na madrugada, quando a saudade vasculhava a gaveta do coração”… Esclareço que não compreendo minhas lembranças como sonho perdido, nem mesmo como saudade. Parecem mais uma foto com som e imagem, melhor dizendo,um filme com trilha sonora, no qual um bando de pirralhos cantava com gosto, sob a batuta de um indisciplinado maestro. Não havia cobranças…O que nos movia era o prazer de conhecer belas músicas e cantá-las como as entendíamos. Não havia limites. Ninguém temia nem recuava diante do desafio de um idioma estrangeiro… Assim era, como nos parecia! …e estranhos “dialetos” iam-se sucedendo nas animadas noites, após o jantar. Bastava um disco ( e eram muitos!) na “vitrola” e a função começava. Espetáculo diversificado, não havia escolha prévia. Tudo era bom: tango argentino,  românticas músicas italianas, a imensa variedade das deliciosas, e às vezes dramáticas , composições do nosso cancioneiro popular…e até, (podem crer!) óperas. Não havendo Dvds, ficávamos por conta da nossa imaginação. As aulas de piano, extremamente metódicas, não se aproximavam, nem de longe, dos nossos “saraus” improvisados. Crescemos apreciando a Música e todo o bem que ela nos traz. Teoria, solfejo, harmonia, bemóis, sustenidos, bequadros, são coisas para os iniciados, nunca nos seduziram. Costumo imaginar que, se em vez de piano, tivessem nos aproximado do violão, as coisas, digo, a vida  teria tomado um outro rumo… “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”… Naquele tempo (tem gosto de coisa sagrada!) apreciávamos e curtíamos adoidado a voz de Mario Lanza e o ajudávamos a gargalhar na ópera Pagliacci…ou   La donna é mobile,  Ave Maria, Santa Lucia, Granada, eram  canja para nossas gargantas e o nosso entusiasmo. Carlos Gardel e Nelson Gonçalves tinham espaço cativo no nosso “palco”: quanto mais dramático o tango, mais sucesso fazia! …Coração Materno, Porta Aberta e “dá-lhe” Vicente Celestino que, na preferência de meu pai, perdia para Francisco Alves. E tinha mais Orlando Silva, Carlos Galhardo, Silvio Caldas,  para momentos de seresta! Dalva de Oliveira, Ângela Maria, benditas entre as mulheres. Ima Sumac, a princesa inca, com sua voz única! Dizia-se que ela aprendera a cantar indo para a floresta imitar os pássaros…e a nossa imaginação a acompanhava em suas andanças.

Não, não é saudade, é revivência. Basta que se ouçam  novamente essas canções , o tempo retorna e o filme começa.

A música clássica – assim eram chamadas aquelas tocadas pelas grandes orquestras sinfônicas recheadas de violinos,  violas, cellos, oboés, fagotes,trompetes e tubas, piano, harpa e o pretencioso prato, pontuando o arrebatamento! – hoje “dita erudita”, escreveu um capítulo à parte na minha memória musical e afetiva. Sei que não havia o objetivo de nos fazer mais “cultos” e sim mais sensíveis ao que nos torna felizes. Grande homem, o nosso “maestro”! Deixo para vocês um pouco da minha recordação. Numa tradução livre:

Representar!
Ainda preso ao delírio não sei o que digo e o que faço!
E ainda…é do ofício…Esforça-te!
Bah!! És um homem? Tu és palhaço!!
 
Veste a fantasia e pinta o rosto de branco
As pessoas pagam e querem rir…
Se Arlequim te rouba Colombina,
Ri! Palhaço!
Alguém há de aplaudir.
Transmuta em graça o espasmo e o pranto!
Em soluços , o desgosto e a dor!
Ah! Ri palhaço! …sobre teu amor dilacerado!
Ri da dor que envenenou teu coração!
 
 
Achávamos esta interpretação O MÁXIMO!!! E continuo achando!
 
Por outro lado, encontrei este vídeo maravilhoso e partilho com vocês, agregando delicadeza ao período festivo do ano que se finda.
 
 

Boas Festas para todos e um Novo Ano pleno de realizações!

 
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7 Respostas to “Promessa é dívida”

  1. zek004gul 5 de dezembro de 2011 às 16:10 #

    Vai longe o Natal de 1951.
    Naquele teu tempo, a infância ainda era de graça – como toda infância…
    …As contas vieram bem depois.
    Posso perfeitamente imaginar Alberto Hoisel – esperando o almoço de domingo, a petizada em volta – arriscando acompanhar a vitrola:” La donna è mobile…”
    Ma, da vero, credo che l’uomo sia mobile.
    Secondo diceva Vinícius: “O homem não presta.”
    Che ne pensi?

    • dinah 6 de dezembro de 2011 às 16:39 #

      Não “credo” que toda donna è mobile e, muito menos que l’uomo não presta. Tudo isto é um exagero!
      Da minha parte tenho especial apreço pela fatia masculina da humanidade…tenho conhecido alguns, apenas alguns, é verdade, MUITO interessantes e com grandes qualidades.
      Quanto às mulheres, sei que inconstância, leviandade,instabilidade são atributos facilmente encontrados nas donnas. Mas não se trata de generalizar.Seria uma afronta!(Ou não?)

      Quanto a outras fatias da sexualidade, contem com minha estima e minha simpatia.
      De qualquer forma, um “bacio” para todos!

  2. Sandra 6 de dezembro de 2011 às 20:52 #

    Vóooooooooooovis! Que criança é aquela?? :O
    Jesus, incrível! Adorei os videos… A primeira música é de arrasar! A letra é chocante!
    Adorei ler e imaginar seus tempos de criança, vóvis… Quero passar uma semana aí em Ilhéus e emendar com o Natal; aí você me conta mais “daquele tempo”.

    Adorei! Saudade, nos vemos em breve!
    Te amo, Bjs,
    Sandra Arléo.

  3. dinah 8 de dezembro de 2011 às 08:58 #

    INTERESSANTE!!! Reativaram o comentário de 14 de fevereiro deste ano cujo tema foi “É o Amor, outra vez”. O tempo escorreu mas a mensagem é válida para hoje e SEMPRE! Fico feliz que seja um tema que interessa…Gracias!!! Eu o escrevi pensando em Bel e Masc, mas tem o endereço extensivo a todos os que vivem esta experiência…AMEM!

  4. Rejane 8 de dezembro de 2011 às 11:39 #

    É o Google!
    Fui atrás do seu endereço e quando colocamos “vamos cirandar wordpress” é o primeiro que aparece.
    Pensei que era o atual e aí…pimba!
    Mas olhe, com relação a esse mais novo acho que muito disso tudo se deve a seu pai.
    E eu devo muito a você, ter gosto pela música, e música de bom gosto (de qualidade)que você me ensinou a ouvir.
    Segredo: alguns discos de ópera de meu avô estão comigo! (pssiiu)
    Amo a música!
    Assim como o amor, não vivo sem ela! Quero ir pra aí no natal.
    Quero ir pra aí no natal.
    Beijo grande!

  5. dinah 21 de dezembro de 2011 às 18:10 #

    Prometo (outra promessa??) que um dia eu volto! QUANDO? Não tenho uma resposta agora, mas sei que volto!

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  1. Voltei…pressionada pelas circunstâncias… | - 17 de julho de 2013

    […] Promessa é dívida […]

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