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Anseios de um Artista

23 jan

DOMINGO, 23 DE JANEIRO DE 2011

Como já registrou o poeta, “tenho alma de artista e tremores nas mãos”(Aldir Blanc)…

Independente da forma de arte que o sufoca, o artista é um inseguro…depende do diálogo que pretende estabelecer com quem o aprecia…ou não.
O artista se ressente da ausência do retorno, do aplauso, da resposta, da ressonância que espera, acerca dos seus angustiados gestos.
Pintura…Escultura…Teatro… Literatura…Música…Não importa. Em cada uma, a exigência de feedback. Sem isso, ele se sente incapaz.

Alma em erupção
lança no ar seu tormento
Pincéis, telas, tintas, cores,
cristais fixam sentimentos…
Mas, tela muda não revela
dores, sonhos…fragmentos
do vulcão deliberado
que expulsa excrementos.

Ritmos, versos e rimas
– um grito desesperado
preso em páginas fechadas –
são fogos que não se acendem,
não voam…pássaros abortados
São flechas que erram o alvo
São canções jamais cantadas
São suplícios mal vividos,
errantes, não ouvidos…
não consolados.

Quisera poder cantar,
(com certeza, cantar é uma sangria!)
– na voz, gritos ou sussurros –
o que da alma é chama ardente
e ver o céu se enfeitar de
luzes, sombras, brisas, ventos,
tempestades…no nascente…no poente
Urubus, canários, andorinhas, águias
voando além do horizonte
Som transmutado em asas
libertando sentimentos.

O discurso do artista bem poderia repetir o que Roland Barthes descreveu como testemunho de um sujeito apaixonado:

“Profundamente empenhado em seduzir, em distrair, eu acreditava expor, ao falar, tesouros de engenhosidade, mas tais tesouros são apreciados com indiferença: dispendo minhas ‘qualidades’ à toa: toda uma excitação de afetos, de doutrinas, de saberes, de delicadeza, todo brilho do meu eu vem esmaecer-se, amortecer-se num espaço inerte…”

Quem nunca passou por isto?
Poderia o artista suspirar, inconsolável:

…e não fui…

O impulso é incontido
O horizonte, incontrolável
A estrada, o desafio
A vontade, botão de arranque
O destino, indefinido

O fim, não classificado
Acelerador, enlouquecido
A viagem, uma aventura

– …o freio de mão!
– Não fui eu quem o ativou…

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Histórias que ouvi contar

5 dez


Nenhuma seleção de historinhas é mais interessante que a Mitologia , a grega sobretudo.Vejamos que a moderna Psicologia não dispensa seus contributos para entender melhor a alma e o comportamento humanos.

Tenho muito gosto em reler “Dafne e Apolo” e suas desventuras. Dafne foi o primeiro amor de Apolo. Outros vieram depois, e muitos. Como aconteceu?


Tendo Apolo vencido Píton , a enorme serpente, e vaidoso disto, sentia-se senhor e dono do valor das armas que usou: arco e flecha. Daí que, nada satisfeito ao ver um garoto brincando com tais armas, reagiu:

“-Que tens a fazer com tais armas mortíferas, menino insolente?” E passou um grande pito naquele que, sendo filho de Vênus, não receberia a repreensão sem reação à altura:

“-Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem ferir-te.” E Cupido, pois era ele, o insolente, desferiu um golpe que marcou o deus com uma ferida incurável : a capacidade de amar, sem limite…
E mais, vingou-se ferindo, com seta de ponta feita com chumbo, uma belíssima garota, a ninfa Dafne pela qual Apolo se viu perdido de amores. Mas a seta malígna que feriu Dafne a tornou imune ao sentimento que devorava o coração do deus.

Muitas vezes o pai da ninfa esteve a implorar :”Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos…”
Sob a influência da vingança do pequeno deus do Amor, a moça , temendo o casamento, implorava de volta:
“-Pai querido, concede-me esta graça! Faze com que eu não me case jamais!”
A contragosto o pai consentiu, mas prevendo um futuro nada promissor para a garota.
“-O teu próprio rosto é contrário a este voto.”

Sem conhecimento do trágico vaticínio, Apolo amou-a e lutou para obtê-la… ele, oráculo de todo mundo, não foi capaz de prever o próprio infortúnio. Seguiu-a… ela fugiu a correr, mais rápida que o vento.
Ele suplicava: “-Para, filha de Peneu, não sou teu inimigo! Não fujas de mim como a ovelha foge do lobo!…É por amor que te persigo!…Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coração e agora sofro de uma enfermidade que bálsamo algum pode curar!”

Quanto mais ela fugia mais encantado ele ficava…Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com as asas do amor. Ele termina por alcançá-la. Ela em desespero invoca seu pai, o rio-deus:
“-Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me ou muda as minhas formas que me têm sido tão fatais!”
Algo extraordinário começou a acontecer mal ela acabou de proferir o seu apelo…(Extraordinário para os nossos conceitos atuais, mas não para uma época em que deuses manipulavam sem cerimônia tanto os sentimentos, os fatos, o tempo, a natureza e tudo que poderia ajudá-los em suas conquistas e vinganças!)…
Um torpor tomou conta do corpo de Dafne; uma leve casca passou a recobrir a sua pele, antes alva e macia; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus braços, em galhos; seus pés fincaram-se no chão gerando raízes; seu rosto conservou, de antes, somente a beleza…agora uma viçosa planta, o loureiro, que nunca perde a graciosidade, nunca perde o verde!
Apolo abraçou-se aos galhos e tentou beijá-los…os galhos recuaram…

“-Já que não podes ser minha esposa, serás a minha planta preferida e com tuas folhas enfeitarei a minha lira e a minha aljava; e, quando os grandes conquistadores desfilarem à frente dos cortejos triunfais, serás usada como coroa para suas frontes! E tão eternamente jovem, como eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão”.

Inúmeros poetas se serviram e beberam na fonte deste amor desventurado. Eu, poeta-menor, não me furto a me deixar influenciar por ele, também. Ligo-o a outra historia que ouvi contar…

Alguém que, como Carolina, da janela analisava suas circunstâncias. Ela, que um dia tinha vivido uma experiência dionisíaca, agora se encantava e se emocionava com o sofrimento do casal mitológico acima enfocado. Como toda Carolina, também esta via o tempo passar, sem perceber que pouco adianta os olhos fundos, guardando a dor de todo este mundo…isto não vai nada mudar…bem aconselhou o poeta. Lá fora as rosas continuam nascendo, mil versos são cantados só para agradar, muitos continuam sambando…Que falta para que Carolina acorde? Uma tola! Vai que morrem as rosas, a festa acaba, e aí ?

A mim, restou-me a inspiração sobre a suspiração desse povo emotivo ao extremo.

Semear…cuidar…colher
na seara de Dionísio
(para ela, opção alternativa)
desejo de sentir-se viva
Verdade dos sentidos
Mentira da mente

De resto…espera?
Esperança?
Desistência?
Ânsia?
Dormência.

Um dia (…uma noite?)
um vulto
Só um vulto
Primeiro…último…único:
Apolo perseguindo o ideal
(da janela ela observa a cena
testemunha a luta desigual)
Busca infecunda
Inútil corrida de atletas
-Ideal, somente sombra-
Dafne, apenas alcançada
desfaz-se em planta
a sedutora face.
Da janela ela vê a fuga da donzela

Apolo,
verdade da alma
Deus da música,
do canto, da lira, da cura…
nas mãos, folhas de louro
prêmio de vitória…Sem glória,
posto que satisfatória.

Ela, à distância,
acalma sua loucura…
desejo de ventura…
e chora.

Maiores esclarecimentos melhor consultar “O Livro de Ouro da Mitologia” de Thomas Bulfinch e claro, o grande Chico Buarque.

Ps. Brasileiro é tão debochado que utiliza o digno e honroso vegetal como condimento para temperar feijão! ( Minha nossa!)
Postado por Dinah Hoisel às 08:30

Uma outra vereda para o GRANDE SERTÃO

29 jul

Um simples toque no nome de João Guimarães Rosa e vejo-me arremessada ao encontro de seus inesquecíveis personagens do Grande Sertão: Veredas.

Um romance que li com avidez. E não posso me furtar ao prazer de relê-lo muitas vezes, na busca dos tesouros encontrados nas suas mais de seiscentas páginas. Renovado desejo de rever e repensar inúmeras afirmações de valor imenso, só cabíveis na mente de um autor excepcional e que se destaca, além disso, pela originalidade do estilo.

De posse de uma bateia, eu preciso, volta e meia, recolher as pepitas de ouro escondidas naquele filão inesgotável.

Ali, o Bem e o Mal se digladiam com astúcia e fúria e, não raro, mudando de receptáculo. Sim, porque a generosidade, o companheirismo, a valentia, a fidelidade, o misticismo, o amor, a dor, a justiça, o medo, o ódio, não têm dono certo. São parte de um labirinto, ou uma teia, que envolve todos os personagens.

É o redemoinho onde O Que Não Há, o Diabo, o Coisa Ruim, o Tinhoso se farta.

O próprio Tatarana dá a receita:

" …para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah, basta se olhar no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou de ruindade!"

Escrevo, hoje, para registrar uma injustiça que ficou pouco clara no tortuoso roteiro da narração.

Fácil é identificar o maldito da história; o Hermógenes. Para ele, parece não haver salvação. Nem um gesto, nem uma palavra, nenhum sentimento que revelem um mínimo de boa vontade em favor de alguém. É o emissário da morte inglória…o próprio Demo.

Não há dúvida sobre esse fato. Ele mata…e pronto!

Não importa quem seja a vítima…cruzou o seu caminho, atrapalhando seus planos, inimigo ou inocente, o destino está selado! "Hermógenes, homem que tirava seu prazer do medo dos outros, do sofrimento dos outros".

Não é ele que quero colocar no banco dos réus.

Meus olhos se voltam para Reinaldo, mais conhecido como Diadorim.

É. Diadorim, sério, bonito, gostando de silêncios [o que demonstra introspecção] braços alvos, e rosto corado, grandes olhos verdes, finas feições… assim o descreve Riobaldo. Um Riobaldo apaixonado, um Riobaldo torturado por um sentimento condenável, um jagunço valente, cabra macho cuja coragem fora conquistada a duras penas, nas temíveis batalhas do cangaço…Um homem tão perturbado que chega a sonhar com o objeto do seu delírio passando sob o arco-íris.

Ah! Assim estaria livre daquele feitiço, e livre para realizar o seu amor.

Diadorim sabia! Sabia o que se passava no íntimo do seu "amigo". Sabia…mas silenciava…

Escondia-se sob o manto de tenebrosa mentira.

Aquela infeliz podia ter mudado o destino dos dois.

Podia ter encontrado o momento próprio de revelar-se.

Podia, quem sabe, numa noite de lua, ter saído das águas de um riacho, como uma deusa grega, uma Afrodite do sertão, vestida da nudez reveladora…mas, não!


No meu entender, ela foi o maior algoz de toda a trama!

Em nome de uma vingança, assassinou o Amor…

Bato o martelo!

Fim do julgamento: Culpada!

Matar o Amor é tão cruel quanto matar pessoas.

O desprezo indefensável de Diadorim fez de Riobaldo o eterno sofredor que revive, com a interferência de cada novo leitor, o seu tormento, naquele lamentoso depoimento ao ouvinte fantasma.

Justifico o veredicto:

Ah! Diadorim
Foste intransigente demais.
Dia após dia,
noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura …
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.

De quem queria te tocar,
te falar, te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível
te servir
te acariciar…
Estar sempre ao teu lado
passar a mão em teus cabelos
te fechar os olhos
te ninar
cantar, talvez, uma canção de amigo
para que pudesses dormir ao seu abrigo.
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.
Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo um passarinho…

Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o Demo…
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas,o sol da estrada.

Ah! Diadorim…
Não há perdão para tamanho sacrifício
Não há perdão para tanto desperdício.



P.S. Claro que se a história terminasse com um happy end o romance não passaria de um folhetim semelhante a outros tantos.

Maria Deodorina criando filhinhos – um a cada ano – criando galinhas, plantando hortaliças e flores, enquanto Riobaldo – não mais Tatarana – deitado numa rede, cofiando o bigode, apreciaria o grande plantel de animais ultra selecionados que amealhara com seu trabalho, ajudado pela polpuda herança e pelos amigos influentes.

Felizmente, J.G.Rosa não me pediu opinião.

Mário Quintana, um Mestre.

20 jul

Senhoras e senhores,
continuo minha peregrinação pelas "causas indefensáveis".

Talvez esse tempo de ventos uivantes e uma chuva que não passa, nos obrigue a uma interiorização com sabor doentio, quando, então, o nosso "porão" sofre um processo de desinfecção obrigatória.
A água que cai, vem lavando recantos esquecidos. É um momento próprio para reconsiderar…

Minha terra é chamada "Ilha da Fantasia" devido ao sol e à música que nela imperam…são sua alma e seu sangue…

De repente, uma sombra recobre tudo. E o sentimento da gente vai junto…E o jardim também…

Pensando no jardim e nas pessoas, levanto mais uma bandeira de reconciliação.


Vejam o que diz
Mário Quintana:

O que mata um jardim
não é mesmo alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim
é esse olhar vazio
de quem por ele passa, indiferente.

… e eu completo:

Creio que também
é esse olhar que mata
as pessoas que perpassam
à nossa volta, mendigando atenção
…e nem são vistas!
O olhar indiferente
as torna transparentes
…e mortas!

Dedico esse post a Bruna… uma pessoa que a vida se incumbiu de maltratar e fazer dela um alguém que, por onde passa, sofre rejeição.
Define-se como "ela", embora tenha nascido "ele".

Bruna copy
Aproxima-se das pessoas para pedir ajuda, mas o seu aspecto não colabora. Quase sempre sujo, dentes em último estágio de destruição, cabelo desgrenhado, uma magreza inquietante, reveladora do mal que o consome.

Quando o recrimino pelo seu aspecto desleixado , ele retruca:
"Mãe, não tenho nem dinheiro para comprar sabão para lavar as minhas calcinhas!…"
Tenho certeza que, apesar de tudo, ainda lhe resta uma boa dose de humor:
"Estou operada… retirei o útero!…"
Ele se torna grosseiro e até agressivo se lhe negam a esmola…mas não ultrapassa as palavras.

Eu já sofri muita incompreensão pela atenção que lhe concedo.

Não poderia agir diferente!

Ele retribui vindo me ver, sempre tomado banho, cabelo cortado, roupa lavada…só as unhas estão sempre horríveis! (mas ele as esconde para que eu não as veja…)

Um dia ele me disse: "Sabe por que eu gosto da senhora?"
E ele mesmo respondeu: "Porque a senhora me olha!"

Bruna me adotou como "mãe"… e não se sente nem um pouco incomodado em apresentar minha filha como sua "irmã", onde quer que a encontre…
Fala isso com uma certeza comovente.

Eu bem sei que o rumo que sua vida tomou tem muito da sua própria responsabilidade. Mas tenho certeza maior ainda – muitos foram os que colaboraram para transformar uma criança linda e saudável, ou o cozinheiro competente que outrora ele foi, naquele coitado que depende da compaixão dos outros.

Uma última palavra

Guimarães Rosa:

"Eu sei: nojo é invenção do Que Não Há para estorvar que se tenha dó."

Em nome da Justiça

14 jul

Mais uma vez encontro-me na situação premente de continuar em defesa das "injustiças injustificáveis"(!).

Creio mesmo que, no meu histórico, está faltando uma página deveras importante: advogada das causas impossíveis…mas aí eu tomaria o lugar de um santo muito respeitado e requisitado – Sto. Expedito.

Vamos aos fatos.

Conheço um senhor que, continuamente, não é levado a sério. Fazendo parte de um grupo de pessoas sérias (Exupéry as reconhecia há long, long time ago !) sempre que o meu quase amigo fazia alguma colocação, ou defendia alguma tese no ambiente grupal, os companheiros rejeitavam e até condenavam seus pontos de vista. Achavam-no não apenas irônico, mas até debochado…

Ele não aceitava tal juízo, que considerava injusto. Não posso opinar com segurança uma vez que não faço parte do seleto grupo (acho que não sou uma pessoa séria o suficiente!). Sendo assim não me cabe o direito de aferir ou compreender o mérito ou o demérito das suas ditas irreverências.

Ora vejam! Um dia ele se sai com essa: "Senhores, eu amo o som da minha descarga!"

No ambiente antisepticamente ético, de moral ilibada, politicamente correto, o anúncio caiu como uma provocação!

Era o absurdo levado a extremos. Era a exacerbação do deboche. Era a explosão da picardia.

E, como nunca, ele se viu acuado pelas disposições em contrário.

E ele ficou triste!

Sabendo do ocorrido, revesti-me com a túnica da defensoria pública.

E pensei…pensei…refleti…até atingir o âmago da questão!

Foi então que a minha alma de poeta veio em seu socorro, retirando da sua reflexão o sumo da verdade que ela contém:

A Descarga

Talvez por isso

eu ame o som da minha descarga.

Ela me livra, me dispensa

daquilo que, em mim, é excrescência.

É por ela que

de novo, me sinto novo.

Há um renascer a cada golpe

de limpeza dos resíduos.

Um passo novo…

um recomeço.

Uma retomada de caminho.

Fonte de novas escolhas.

Ao esgoto como o mau cheiro

que pode invadir meu ninho.

A água que corre

me livra de pecados escondidos.

Liberta-me de amores complicados.

Afasta-me de sonhos impossíveis

…de muita carga pesada.

…de dores não confessáveis

…sobras não aproveitáveis:

mágoas, sustos, tristezas, vulgaridades.

É, a descarga, a esperança,

o albor de nova era,

certeza de novo chão

…ela me torna outra vez confiante!

Por ela meu corpo se recupera

e minha alma se eleva.

Como podemos perceber, basta um pouco de boa vontade. Afinal, o som da descarga traz, em si, sentido semelhante ao som das trombetas do juízo final: Após aquele som, a redenção!

Pensamentos… em um dia chuvoso

8 jul

Durante toda a minha vida tentei, se não eliminar, pelo menos identificar as injustiças do cotidiano…e elas são tão várias! Um exemplo clássico de injustiçado é o urubu. Considerado feio, as pessoas não lhe reconhecem os méritos e nem percebem a extraordinária beleza do seu voo incomparável.E que dizer da sua função precípua de recolher e “engulir” os resíduos que todos rejeitam?

Deixem-me, hoje, dar a ele o lugar que lhe cabe, ao menos no meu analógico imaginário.

Ao Urubu

Quero trazer-te, sim,

para dentro de minh’alma.

Terás um farto banquete.

Como toda gente,

tenho cá dentro,

em recônditos espaços,

carniças que busco esconder,

sentimentos de odor insuportável

…não os quero conservar!

Vem, és tu o meu remédio.

Preciso limpar meu ego,

recuperar a infância sem temor,

sem mágoas, sem vaidades, sem rancor…

e então poder flanar contigo

em alturas memoráveis,

em viagem admirável,

em voo contemplativo

sobre o reino de além-dor…

Vendo a mim mesma

como flor que acaba de se abrir

e a ti como meu libertador.

Essa poesia me traz de volta a um acontecimento inesquecível que guardo na memória.

Certa feita, estava com um grupo amigo em conhecida praia da nossa Bahia.

Sob frondosas amendoeiras, em um rústico restaurante, fui “apresentada” a um Urubu, que passeava galhardamente pelo chão, como se fosse um galináceo qualquer. Teria caído do ninho e alguém o recolhera, cuidadosamente, e o estava criando como bichinho de estimação. Pelo visto ele adorava sua inusitada situação.

Aproximei-me, olhei-o bem nos olhos, sorri…Com certeza absoluta, ele captou toda ternura que coloquei naquele olhar…e correspondeu!

Passou a me seguir enquanto brincávamos de “O Sombra”…Eu, na frente, e Ele me acompanhando…Em questão de segundos nos tornamos um espetáculo para as pessoas em volta. Entre divertidas e espantadas elas nos olhavam impressionadas com aquele show incomum.

Mas o momento mágico teve fim, pois eu devia continuar o meu caminho, abandonando aquele afeto surgido inesperadamente… fortuito, mas profundo. Eu o deixei , sabendo que não o veria nunca mais…tal qual a amizade entre um conhecido Pequeno Príncipe e uma Raposa…ou um Aviador e o dito Pequeno Príncipe…

Fui embora,mas aquela figurinha é, hoje, um ícone no altar da minha memória afetiva. Guardo-o com carinho e faço desse Urubu um amigo e um conselheiro.


…Coisas da Vida…ou da Imaginação…


É compreensível que os Mitos, as Religiões, as Artes e a Ciência da Alma tenham conseguido rastrear e identificar essa Entidade que atua no eu-profundo dos seres humanos e da qual meu Urubu é apenas um símbolo.



Mudando de assunto.


O triste cotidiano tem invadido a minha privacidade com notícias da minha terra, as quais me deixam muito abatida. O Nordeste parece ser um “filho enjeitado” com o qual tudo pode acontecer.


Pasmo nordestino

Que enormidade de chuva

vem caindo sobre a terra.

Parece que o céu decidiu

afogar de uma só vez

todas as mágoas do mundo.

Nesse tempo desolado

onde se escondem as avezinhas

tão frágeis, tão pequeninas?

Não é só dia chuvoso,

é arremedo de dilúvio!

Um dia há que parar…

não se pode viver assim

sob ritmo tão triste,

melodia de um só tom,

suprema monotonia

…e chove…chove…chove…

Até as plantinhas dizem:

“Já chega!”

Por que tem que ser assim?

Ou sol abrasando tudo

ou a água inundando o mundo?

Em dia de Aniversário

26 jun

Novamente a areia da ampulheta cumpriu sua função de marcar o tempo.

Olhos no calendário. Mais um ano se esgota no cálice da vida e a incontrolável dupla tentação mais uma vez se apresenta: medir, contar, avaliar e, pior ainda, qualificar os dias que se foram…ou, sob outro enfoque, querer estabelecer metas para o próximo ano que ora bate à porta. Bobagem em ambos os impulsos.
Melhor não abrir champanhe para nenhum dos dois casos… pode ser um gasto inexpressivo e inútil.
Mais de uma vez já declarei que convém exorcizar
A BALANÇA
Para refletir a própria história
melhor usar o bom senso:
Distância da balança da justiça.
Aqueles dois pratos rigorosos
que, sem condescendência,
são juiz do acontecido.
Tribunal sem misericórdia,
sem contemplação, impiedoso,
contabiliza o sim e o não,
medindo e pesando o que passou.
Em um dos pratos,
os gloriosos momentos…
No outro prato o desengano,
a dor, o sofrimento,
todos os mistérios dolorosos.
E a síntese da história
ali se vê retratada
trazendo trágico carimbo
marcado pelo selo do irremediável.
Ali não cabe
nem mesmo o arrependimento,
território vedado à esperança.
Pra que medir e contar o que navega
no oceano do sem jeito?
Para que reviver desilusões
erros, desencantos, desencontros,
decisões calcadas na estupidez?

Tampouco convém confiar demais no

Vir- a- ser
Por ínfimo que seja o vir-a-ser,
é lá que se projetam as possibilidades.
De lá podem surgir compensações.
No que virá se forja o talvez.
Lá o imponderável,
o imprevisível,
o inesperado,
talvez tramando alguma teia…
Talvez boa notícia…
Sem que o saibamos, o inaudito…
Quem sabe…talvez…

As inferências alcançadas podem invalidar muitas ilusões

Que vida?
Quantos dias cabem
no alforje que carrego às costas?
Quantos passos medem
as pegadas que deixei pra trás?
Qual o peso do ar
que desde sempre respirei?
Por quantos toques o pulsar
deste triste coração
já anunciou que vive?
Será que vivo?
Será que tenho vivido
todo o tempo e o espaço que percorri?
Tantos foram os dias
cobertos por mortalha…
Tantos foram os passos
que levam a lugar nenhum…
Tantos foram os soluços entrecortando
e impedindo a inspiração…
O coração tantas vezes louco,
ao ritmo de tambores fúnebres.

Contabilizando assim, vivi tão pouco!

No entanto, se alguém precisar de estímulo, resta um último consolo, uma provocação:
Talvez

Grandes são os desertos? – Sim!
Tudo é deserto? – Talvez…
Talvez…possibilidade entre o sim e o não…
Movimento entre o erro e o acerto.
Resistência frente ao ir e vir.
Dúvida que consome o passo …
O deserto aí está…
São grandes seus espaços,
imensa a sua solidão,
tremenda a ausência da certeza,
lento o momento da decisão…
Mas provocante é a proposta
do alcance das lonjuras do horizonte…
a oferta da viagem,
embriagador convite à aventura,
o desafio de encontrar o oásis
…superando o desconcertante
encontro com a miragem.

Então vamos acender a velhinha, digo, velinha do bolo e iluminar os dias que se seguirão! Cantem comigo mais uma primavera (!) conquistada…