Esperar… ou desistir?

9 nov

 Parece-me que tenho sido exigente demais…Espero uma onda incontrolável de inspiração…Espero um céu límpido e cintilante de estrelas em fulgor absoluto…Espero um tempo de glória em que as notícias venham trazendo um clarão aconchegante de bem-estar coletivo e universal…Espero que meus antigos leitores se organizem em bloco para exigir a volta deste encontro de palavras poéticas e utópicas…Espero o retorno de um sol nordestino que não machuque  e que distancie , aos poucos, a revolta das águas que pretendem afogar inocentes e culpadas gentes…

Espero demais, em tempo e em volume!  Por não conseguir arredar o pé de onde estou, vou estiolando  e desaparecendo…E  o que tenho esperado não chega nunca!

Mais uma vez andei lendo o que escrevi há tempos. Descobri  e reencontrei o tempo da fartura, os sete anos de fecundidade, os momentos de criação generosa nos quais me expressei sem pudor:

                   A mi me gusta reler
                   o que  em momentos venturosos escrevi
 
Parece-me que suave maestro,
sábio, lúcido, engenhoso,
aproximou-se de mim,
expressou-se,
segredou-me melodias
…e ,confiante ,afastou-se.
 
Cabe-me a tarefa
de ouvir, elucidar, digerir,
viver, divulgar e expandir
o que me foi confiado.
 
Sincrônica orquestra
de harmonia inquietante,
mágico tecido translúcido
entremeado no cotidiano.
Nem longe, nem perto,
mas dentro do momento vivenciado
a cada instante.
 

Um tempo de coração aberto, mesmo que mais uma vez induzida em erro, tive coragem de sentir e escrever:

   Fora de alcance

Tenho vivido a bastante
para reconhecer o amor
quando ele chega
 
Nas nuvens, nebulosas,
na neblina do tempo
me enganei algumas vezes:
brilhos falsos, 
fantasias, 
Momentos em que
a solidão assumia a emoção
e tola, burra,  eu confundia
o que nem de longe 
era o amor que eu desejava.
 
É assim…nem só o corpo
tem exigências, tem anseios…
A alma é muito mais seletiva.
Alma – herdeira de Diógenes –
busca O Homem,
o ser humano de verdade.
Aquele em quem se pode confiar.
Aquele que traduz integridade.
Que faz a alma cantar.
Que tem inocência bastante
para fazer aflorar
a inocência da gente.
 
E a alma se faz cativa
de um amor para a eternidade
pois esse mundo difícil
 não se permite ser palco
para tão sublime raridade.
 

Consola-me a posição desconfiada do grande poeta RAINER MARIA RILKE.    Cheio de dúvidas, baseado em “talvez” e “quase”, ele afirmou:

A comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.

Vamos esperar todos juntos?…ou desistir?

Esperando o retorno do sol

6 out

Dia frio, chuvoso, cinzento, melancólico, um gosto de mal-assombros no ar, obrigando as pessoas a se recolherem em si mesmas, esperando que as cores retornem…

Quanto a mim, acalentei-me com palavras escritas em outro dia, mais lúcido, mais reflexivo, até mais colorido…no entanto, não mais caloroso do que hoje. E passo-as para vocês, meus companheiros desta viagem um tanto interrompida.

Amanhece. Cabem-me algumas providências indispensáveis, tais como: colher as amoras maduras de uma produção incipiente mas que faz bem ao coração de quem plantou a árvore. No caso, eu.

Flores 187.jpg

Depois, molhar as plantas, é claro, se não choveu à noite. Ainda assim ficam esperando por água aquelas que se encontram em vasos,  distantes do alcance da chuva. Essas, às vezes, aparentam estar se despedindo da vida –  folhas murchas, hastes encurvadas, abatidas, terra seca…um quadro desolador.

Poderão elas , reagir, recobrar o vigor, a vitalidade, o viço, a vida? Sim. Bastam algumas gotas e tudo se renova: a cor, a higidez, o perfume, a energia, o frescor, a alegria…É quase um milagre. Eu, ao mesmo tempo, com elas, me refazendo, me revitalizando.

Se somos prisioneiros  da nossa ilha intrínseca e intrincada, existem entretanto algumas frestas no céu obscuro que nos envolve e, através delas, podemos enxergar um nascer ou um pôr do sol inesperado. Percebemos aí um algo além…

REJANE FOTOS 1 (27).JPG

O quê?!…Certamente não tenho resposta. A cada um a que lhe cabe.

Creio que seria mais fácil se fossemos , todos, “sólidos regulares” mesmo que constituídos de inúmeras faces. A cada “lançamento” no pano verde da vida seria possível um cálculo. Mas somos “sólidos irregulares”, o que torna impossível qualquer prognóstico…e até os diagnósticos se revelarão confusos, contraditórios, dúbios,  difíceis de entender e, por consequência, difíceis de explicar.

O que, em nós, pode ser classificado como definitivo ou inabalável?
Os nomes?
Os sentimentos?
Os pensamentos?
As definições?
Os gestos?
As palavras?
As faces?
As “máscaras”?
Os esconderijos onde nos esquivamos das “invasões externas”?

Expo -08-09-09 (119).JPG

Há quem afirme : “Só a morte é definitiva e implacável!” Não concordo. Afinal existe uma facção enorme a defender que ela nem existe!

Se fosse tão definitiva assim não deixaria margem para dúvidas nem espaço para discussões. É somente mais uma dubiedade ao nosso dispor.

DSC00604.JPG

E, para todos, o meu mais sincero gesto de carinho.

Uma antiga história

18 set

foto.JPG

A Natureza nos impõe seus caprichos, nas diversas fases que vai desenrolando diante de nossos olhos. A Primavera multicolorida , cheia de brilho e esplendor, numa riqueza de detalhes que nem todos enxergam… é como se ela passasse mais rápido que as outras estações: é  tempo curto demais para que todas as cores e perfumes sejam percebidos com a merecida atenção.Sempre deixa saudade…

O Verão comporta energia extra. Há muito sol, muita praia, muitas férias a exigirem atividades enlouquecidas de desejos a serem realizados. Tudo que envolve prazer, encontros, festejos, viagens, está encastoado, quase sempre, no Verão, que brilha como joia rara…

Outono, período de reflexão e recolhimento, quando a seiva é poupada para alimentar a fase que vem depois…Uma estação plena de dourados e silêncios. Um vento frio, vindo de longe, arranca as folhas que fizeram festa no Verão; frutos se apresentam para alimentar os viajantes que, nos caminhos, buscam com o olhar algo que lhes traga de volta a força e a energia que, talvez, o verão lhes tenha surrupiado.Tempo cheio de presságios…

À sombra do que foi um outrora
repousa agora a folha emurchecida
Da cor que um dia a revestiu (bonita!)
mais nada existe e, sobre a terra, chora.
Perdeu a cor, o lustro, a primavera, a vida.
Já não protege do calor o viajante
nem exala frescor, sombra , perfume…nada!
No triste outono resta-lhe a saudade
da vida útil que viveu um dia
 
Tola cegueira que não deixa ver
a nova história que hoje desfia:
É um tapete de dourado encanto
em que os pés do viajor encontra abrigo.
E, de mansinho, suaviza-lhe o caminho…
Sem ser notada traz conforto amigo
Todos a pisam e…distraídos, a ignoram. 
 

Vejam só o que descobri agora: nunca escrevi versos para o Inverno!

Por que terá sido?

Medo das nuvens cinzentas e sombrias  que costumam encobrir o azul do céu de Primavera ou do exuberante Verão?

Inquietação que nos envolve quando chuvas, raios e trovões obscurecem o nosso ser , num sentimento de ameaças e temores reais ou imaginários? Espécie de premonição de abismos de solidão e frio?

Aquela tristeza  por saber as sementes provisoriamente escondidas , sem condições de se sobrepor às ordens da Senhora Natureza? Se for assim, melhor. É o momento de se alegrar e confiar. Em breve acontecerá a renovação…a Primavera vai retornar com todo brilho que lhe é próprio. A explosão de cores, perfumes e formas, romperá a  terra e a alegria recobrirá novamente a Vida. 

Não é assim ?  Ou tudo não passa de delírio animista de poeta   exigente de imagens e ideias poéticas atapetando o árido caminho por onde andamos?

 

 

 

 

.

7 set

Em silêncio, há tempos…Que maldição conseguiu calar a boca de alguém que precisa falar, ou melhor, precisa escrever, para que o sangue continue circulando em suas veias? Sangue?! Que sangue?!

O sangue que instila vida às veias que estiolam diante de coisas e situações que desinstalam, que comovem, que maltratam , ou até aquelas que alimentam e trazem estímulo para o que causa admiração e gozo.

Escrevi coisas, sim, mas poupei os supostos leitores das coisas que escrevi…

Melhor silenciar que expor as absurdidades invasoras dos sentimentos de alguém cuja sensibilidade não consegue filtrar ou minimizar as dores e os desconsolos que marcam como ferro em brasa, lugar-comum ao qual não quero escapar procurando substituto, uma vez que poderia perder o impulso que ora me domina, no desejo de reconciliar-me com a palavra escrita. Voltar a  encontrar os talvez ainda existentes e raros leitores que me restam?  Uma temeridade. Provavelmente, mais do que nunca, estarei falando ao vento , como vaticinou o poeta .

Quem gostaria de ler?

Em Fim…
 
Silêncio surdo, de peso insuportável
Nuvens de chumbo colando em firmamento
o gosto de fim dos tempos.
O ronco ensurdecedor, quase inaudível,
vindo de longe, de muito longe…
Esparsos tremores prenunciam 
o desmoronamento total.
Como não perceber os escuros preságios 
na indizível tempestade que se aproxima?
 
A hidra da desunião vem tomando corpo e,
indômita fera, arreganha os dentes,
pronta a atacar para cobrir de sangue
a arena do anfiteatro.
Não há recuo…nem acordo
Não há bandeira branca…
 
O que se perdeu, para sempre está perdido
Resta jogar a toalha
e dar a luta por terminada.

 

Vêem? Sei que o que aqui descrevo pode ser aplicado em inúmeras situações…

Desejo que as que se descortinam nas suas histórias lhes sejam bem “leves”, se  for possível…

“Cai o pano”

19 fev

Voltando dos aprazíveis dias em Barra Grande, mesmo correndo o risco de decepcionar os leitores que esperam registro fotográfico, nada vou publicar sobre a assunto. O local é o mesmo em que fiquei no ano passado e que foi fartamente  registrado. É só clicar nos posts de fevereiro de 2011 e o maravilhoso pôr do sol lá se encontra. O mar permanece tão lindo quanto. O céu continua igual, em suas variadas nuances. A serenidade é de fazer inveja ao Paraíso. A música dos coqueiros e das ondas permanecem com o gosto de canção se ninar. Os restaurantes , embora rústicos , e justo por causa disto, merecem as cinco estrelas do primeiro mundo. É tudo muito chique e, sobretudo de excelente qualidade . Sem medo de errar! A pousada DENADA é movida a simpatia e conforto. Mas não esperem televisão, nem mesmo aparelho de DVD.

O Oceano Atlântico entrou de maneira devastadora no meu olhar. A bacia de Camamu comporta inúmeras ilhas, ilhotas e até paraísos particulares para quem pode. Ficava horas e horas cismando, meditando sobre a coragem dos navegadores que se aventuraram pelo desconhecido, em busca, sabe Deus ( e Luiz  de Camões ) de quê.

Ainda hoje, o mar, tantas vezes bravio e mesmo quando sereno, assusta e faz suas vítimas. Nunca é demais dedicar a ele, o mar, o respeito e a devoção que lhe são, por direito,  devidos. Que ninguém dele se aproxime sem a necessária reverência. Ele assim o exige! E com razão!

É preciso estar atento…

Quentes  icebergs tropicais
escondem perigos submersos
prenunciam armadilhas adversas
quiçá mergulhos infernais.
Sob as águas, à espreita,
rochas escondidas armam ciladas
sob o sereno espelho.
E, no gesto silencioso e traiçoeiro,
o insidioso e inesperado golpe se gesta,
violento, traidor.
 
( Barra Grande,  fevereiro,  2012 )
 

Foram dias de muita reflexão e algumas decisões .

Sem ir muito longe, tenho “viajado” por dentro e alcançado poucos “portos”.

Acho que chegou o instante de parar um pouco. Há mais de três anos escrevo este blog, nos “momentos bons e nos momentos maus”. Se foi interessante para alguns de vocês, muito mais o foi para mim. Chegou, entretanto, o momento de fechar a cortina.

“Cai o pano”
 
Somente ao poeta a última palavra
Manto que recobre o pensamento final
Ou, melhor ainda, 
o sentimento que agasalha
e serve de mortalha
àquele momento do último sopro
– mesmo que muito outros 
ainda estejam por vir.
Nem à ciência
Nem às crenças,
Nem aos ideais
Nem aos desejos não realizados
Nem às recordações das coisas já vividas
a nada disso dedico o meu último afeto…
É diante do suspiro do poeta,
cristalizado em palavras,
que me dobro e me enterneço
…Palavras que escorrem,
lenta e suavemente,
entre as pedras áridas
daquilo que em meu ser
não floresceu, não frutificou, não germinou.
 
Quanto de mim permaneceu
estéril, inútil, infecundo
e quanto se ressente desse vazio
– o tempo do desperdício
o tempo do desassossego.
 
 A voz do poeta vem
e massageia a mágoa
Filtra a cisma
Limpa o campo
Corrige a terra
Fertiliza o solo
…e permite-me partir
como quem ainda tem
ânimo para semear…
 

 Com a palavra, Luiz de Camões :

Canto Quinto  (in  OS LUSÍADAS )
 
Se antigos filósofos que andaram
Tantas terras por ver segredos delas,
As maravilhas que passei, passaram,
A tão diversos ventos dando as velas.
Que grandes escrituras que deixaram !
Que influição de sinos e de estrelas !
Que estranhezas, que grandes qualidades !
E tudo sem mentir, puras verdades.
 
 

…e tudo que eu tinha a dizer, foi dito.

 

 
 
 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

De volta ao Paraíso

4 fev

Ya me voy, partindo amanhã, para o mesmo Paraíso onde estive no ano passado , nesta mesma época : BARRA GRANDE, maravilhoso litoral baiano.

Acho que ali se encontra uma cópia colorida do CÉU ORIGINAL !

Para que nada seja diminuído em resultados favoráveis, sigo acompanhada das mesmas amigas que fizeram da minha estada um prazer incomparável !

Ficaremos na mesma pousada – Pousada Dinada – bonita, confortável, colada ao mar e ao Por do Sol…uma delícia!

Jardim Suspenso 046.jpg

Jardim Suspenso 056.jpg

Jardim Suspenso 027.jpg

A Jardim Suspenso 030.jpg

Poeta? Nem tanto assim.

25 jan

Há poucos dias, um amigo (poeta não assumido), estranhando meu silêncio, escreveu-me:

“Seja dia de mormaço, faça sol, faça chuva, chuvisco, seja verão, veranico, degelo, caiam as folhas, haja tempestade de granizo, borrasca, nevasca, tsunami, terremoto, chuva de meteoros, vento solar, enchente levando tudo pelo caminho, apareça aurora boreal, caiam as folhas, nasçam novos brotos e apareçam botões novinhos em folha, pojadas ou fenecidas amoreiras…há que postar alguma coisa.

Tudo bem.

Mas – e eu tô avisando – se num belo dia aparecer por aqui ceciliameirelianamente dizendo:

 ‘Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa

Não sou alegre nem triste:

Sou poeta’ ,

eu vou dizer que não é bem assim.”

Pode ser…

Poeta? Nem tanto assim.

Apenas gotejo penas,

junto sílabas que choram…

Palavras que às vezes doem,

resíduos de sentimentos

…escapam sem consentimento,

sem querer ferir ninguém.

Barco cuja quilha encalha,

Rumo perdido e sem vento.

O cais, num zás! , evapora

– o barco que sai, não chega

porque ninguém o espera.

Assim as palavras soltas 

peneiram dor e tormento

em dia de aflição e mágoa.

Dia de tecer mortalha

e sufocar sofrimento.

Deixar que as penas se espraiem

e volte a soprar  o vento.

Mexer com nosso barco sem uma carta náutica confiável, esclarecedora das profundezas do oceano em que navegamos ?  Uma temeridade…que pode levar a uma situação desastrosa.

Se concordamos com Manoel de Barros:

“Sou um fazedor de frases.

O que é um verso?

É uma frase, uma unidade rítmica, que  tem como característica ser ilógica”…

então é fácil concluir:

Eu uso e até abuso da lógica. Busco insistentemente  o por quê  e o para quê  das coisas, levando (ou não) ao portanto e ao porquê. A dúvida é companheira e me perco no “…e se?”  Busco respostas…por diversão?…por necessidade?…angústias existenciais? …Sei lá!

O poeta sabe: a coerência  não é uma lei da vida. A harmonia, quando surge, é questão de sorte.

E, como saída,

vamos  “transver” a vida.

Suspira o Manoel…

“O beijo é uma forma de diálogo” (George Sand)  (ou Amandine- Aurore -Lucile Dupin).

Vale dialogar.