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…Ainda Florbela Espanca

11 maio

…apesar de toda água que desce sobre a minha terra, o meu tema permanece:

FLORBELA ESPANCA,
poetisa alentejana , natural de Vila Viçosa, deixou a vida (por vontade própria)
na mesma data em que à vida compareceu.

Marcada pelo paradoxo, Florbela vivia em constante conflito entre o que idealizava e o que conseguia realizar.
Seus sonhos, desejos, sentimentos, pensamentos, atitudes
e realizações se digladiavam em uma arena constante.
…E o resultante: sofrimento!

Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades. Todo ser é uma intersecção de adjetivações diferentes e até opostas” (Diogo de Souza, filósofo português).

E assim se pode dizer de Florbela…

No último ano de sua vida escreveu um diário. Entretanto o utilizou de maneira escassa e, sobre ele, ela afirma não ter qualquer objetivo, mas espera que...”Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo – uma alma – se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me.”

Eu

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia

E, mesmo que que o soubesse, não o dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via !

……………………………………………………….

Assim, jovem, sofrida, ao que parece, carente não somente do amor de alguém, mas também do amor a si mesma (para alguns analistas da sua obra isto se revela como o transbordar dos limites de uma personalidade única)…vai por aí , a poeta.

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas…
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber pra onde vou !

Esta ausência de si mesma, entretanto, não foi maior que o desencontro amoroso em que viveu.

A linguagem poética é muito forte e nos atinge de várias maneiras…
Há versos possuídos da maciez da pérola… e os nossos “dedos” se comprazem em afagá-los, deliciados com a sua delicadeza…

“O contrário também bem que pode acontecer “(Gil)… E há versos que, ao tocá-los podemos queimar as mãos…
São como pedras vulcânicas recém saídas do ventre da terra. Há algo de corrosivo em suas palavras… Um ímpeto que, por ser intempestivo, pode incomodar.

Com certeza os versos de Aline Dichte se revelam neste código, algumas vezes …
Que disse ela a Florbela Espanca?
Que diálogo emocionado resultou desse confronto?
Que versos da portuguesinha provocaram Aline?
Talvez este soneto?

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre de minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel
que nada existe que a mitigue e a farte!…

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar, que não me amas…

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…

A reação de Aline não se fez esperar:

PARA FLORBELA

Não gosto de ti, mulher.
Mulher que espalha versos…
Versos que fervilham amor,
Amor que é muito mais que amor.

Há uma química cruel
– de violência, de mágoa, de alegria –
disfarçada de delicadezas.
Uma só gota do que dizes
corrói toda lucidez.

Por seres fiel espelho
custa-me muito encarar-te.
Escancarar, despudoradamente,
a alma feminina,
como tu fazes, é traição.

Não quero ouvir-te,
nem ver-te
nem saber-te, ali parada,
no limiar da minha própria verdade.

Amar assim, loucura, é o que é…
Mais que loucura,
é quimera, é fantasia.
Ao olhar teus olhos,
em dores me consolo:
Amar assim só serve à poesia !

Eu, Dinah, gostaria de compreender e ajudar ( que anacronismo!), e fiz

CRÔNICA para FLORBELA

Pobre pequena poeta portuguesa…
Linda… Jovem… -” Uma flor! ” vaticinou alguém
vendo-a recém-nascida
…mas , como uma flor, consumiu-se
em fugaz primavera.

Uma vida pela frente,
deixou-se abater…
Deixou-se minguar…
e quase enlouquecer.

A miragem incansável
as suas forças minou.
Que falta de lucidez !
Injusta consigo mesma
viu, fora de si, sua sorte.
Supôs, além de si, um ideal
sem perceber que,
buscando o inatingível,
perseguia a própria morte.

Nesse caminho sem volta
a bela flor se perdeu.
Tanta vida ao seu redor,
ela, morbidamente, assumiu
a dor de sentir-se só.
E, em vulcão incontrolável,
explodiu a sua dor
em palavras formidáveis.

Amor não correspondido
é ilusão do coração.
Veneno que corrói a alma.
Alma que, por não se conhecer,
não se compreendeu capaz
de vencer até mesmo o mundo,
se necessário se fizesse.

Romper amarras,
sentir-se livre e seguir,
completamente inteira
em uma outra direção.

Que pena, Florbela!…
Perdeste a vida a esmo.
Não tiveste a lucidez
de experimentar, sorrindo,
o ” Conhece-te a ti mesmo !”





Aline reapareceu…

3 abr

Ontem recebi uma visita inesperada. Já há algum tempo ela não me aparecia: Aline (Dichte), minha amiga.

Chegou, sentou e entabulamos uma conversa que me pareceu meio sem entusiasmo…
Eu, na cozinha, limpava uma pequena toalha de plástico. De repente, percebi certa semelhança entre a toalha e a Aline, ali na minha frente: ambas se revelavam impermeáveis.
Aline conservava-se distante, nada a atingia em profundidade, nada a alterava, apesar das minhas provocações.
A conversa rolou por algum tempo e em determinado momento Aline, sem se despedir, retirou-se.
Só então vi, sobre o sofá, algo que ela esqueceu.Uma pequena sacola contendo alguns tabletes de chocolate, uma revista com data bastante atrasada…e uma folha de papel onde havia uma poesia escrita a lápis ( com data mais atrasada ainda – estava a completar dois anos de escrita).

Achei o texto poético interessante e, considerando a minha atual fase de aridez produtiva, senti ser providencial ter nas mãos aquele achado.

Entrei em contato com minha amiga e pedi autorização para publicar, aqui, a sua criação.

A resposta não me surpreendeu muito:
– Tanto faz…
Havia profunda indiferença na sua voz.

Coincidência, ou não, o poema se chama:

Tanto faz…

Não mais vou te procurar,
Tenho muito a te dizer
mas nada te apraz ouvir.

Guardemos toda distância.

É melhor assim…


Quase que tua presença,
modulada por um fio,
era a mais doce alegria
que, à noite, me agasalhava.
Sem ela já não dormia.

Era a última oração.
Era o ponto final do dia.
Tua voz era a almofada macia
onde a minha alma-gato
se enroscava pra dormir.


Agora, deixo ao silêncio
a função de me ninar…
Ou àquela fiel canção
sempre, sempre, ao meu alcance.
Sempre pronta, a me esperar,
Sempre pronta a me escutar.


Abissal distância

21 jan

Em amor,

sou gueixa,

mãos abertas, espalmadas,

serviçal enamorada

total disponibilidade.

Bandeja abarrotada

de frutas a escolher.

Árvore de sombra acolhedora

sou rede

sou lareira

em tempo de rigor invernal.

Sou riacho no calor

sereia de canto doce

fazendo adormecer.

Berço que aninha e agasalha

sou brasa que arde e queima

deixando marca infernal.

Mas…

Sem amor

Sou estrela inalcançável

Sou miragem no deserto

Fortaleza inexpugnável

Sou porta acorrentada,

acesso intransponível,

fosso cheio de serpentes.

Cerca de arame farpado

Nem um gesto acolhedor

Nada, nada a oferecer

Se a jornada

é um convite a dois,

há que ter devotamento,

fazendo nascer roseiras

onde só havia espinhos.

Fazendo cair a chuva

que vem emprenhar a terra

reflorescendo o caminho

…e a viagem se faz divina.

Aline Dichte

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Eis aí mais um poema da minha amiga Aline.

Enquanto ela não tem o seu próprio blog, vamos dividindo este espaço. É um prazer para mim e para os nossos leitores. Espero que seja do agrado de todos essa energia especial que dela emana.

Um beijo.

ENCONTRO

14 jan

Encontrei Aline. Sentada em um banco, fitava o horizonte que se escondia além do mar.
Absorta, pareceu-me não se ter dado conta da minha chegada. Era como se esperasse algo surgir lá do longe.

Sentei-me ao seu lado mas nada falei… aquele momento era só dela.
De repente, olhou-me… Havia, em seus olhos, um misto de espanto e desânimo. Pareceu-me ver neles o mesmo olhar desencantado de Chico quando compôs e quando canta: “Estou vendendo um realejo…”

-Sabe, Dinah, acho tinha razão aquele meu amigo quando me escreveu:
“Escolheste uma ingrata via de expressão nesta época tão desdenhosa com a palavra. São tempos impiedosos de gente que caminha para o pódio sem perceber o abismo que lá se esconde. São tempos de imbecilidade cega, muda e surda – não obstante a profusão caótica de imagens, de falastrões e do barulho permanente……. Continua a lançar ao oceano tuas garrafas de náufrago…”

Deixei-a falar. E falou… e falou… calmamente, como alguém que se despe… ou se despede.

Era a voz do poeta não compreendido. Aquele a quem se referiu T. S. Eliot:
“Profetizai ao vento, ao vento apenas, pois só o vento ouvirá.”

Segurei levemente a mão de Aline e ali esperamos a tarde adormecer.

Foi para ela que escrevi:

Não ofereças

Guarda para ti
o que em ti é mais precioso.
Guarda para ti
os teus tesouros.
As tuas pérolas,
não as distribuas,
sob pena de vê-las
pisadas e abandonadas
… ou esquecidas.

Em algum tempo,
Em algum lugar,
Em algum silêncio
um ouvido atento
escutará os sons
que suspiraste um dia
e, em passos lentos,
se aproximará dos cantos
que cantaste, e assim,
talvez ferindo-se
em espinhos tantos,
se chegue à beira
do límpido regato
nascido de tua cristalina fonte.

Não. Não ofereças da tua água.
Deixa que alguém, com sede,
dela precise mais, até,
do que da própria vida.
E aí, só aí,
a tua água terá sabor divino
e as tuas pérolas vão
fulgurar de encantos
e o teu tesouro encontrará destino.

A quem interessar possa

7 jan

Há um tigre em minha cama

defendendo o meu direito de estar só.

É bem verdade quetigre

é apenas de mentira.

Mas sabe rugir

e fazer cara de mau

amedrontando

a coragem do inimigo.

Gosto demais de estar contigo

Porque

gosto demais de estar comigo.

Aline Dichte