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O POETA… E A MENTIRA

10 dez


Nem um único poeta merece confiança.

Tenho absoluta (quase!) certeza: é essencial que se desconfie da sinceridade poética de todos eles.

CHICO BUARQUE mente…e assume isto com uma displicência estarrecedora. Quem o ouve cantando “Cecília” e o crê tímido e apaixonado, se assusta ao vê-lo dizer, com toques de ironia e um risinho debochado:”…as minhas [ mulheres] são todas inventadas!”

FERNANDO PESSOA ?…um fingido contumaz!

MANOEL DE BARROS fantasia :

” O olho vê, a lembrança revê,
a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo”…
………………………….
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.”

MÁRIO QUINTANA inventa:

Eu já escrevi um conto azul, vários até.
Mas este agora é um conto de todas as cores.
Sim, porque era uma vez
uma menina verde
um menino azul
um negrinho dourado
e um cachorro com todos os tons e entretons do arco-íris.
Até que,
devidamente nomeada pelo Senhor Prefeito,
veio ao seu encontro uma Comissão de Doutores
-todos eles de preto, todos eles de barbas, todos eles de óculos
E,
por mais que cheirassem e esfregassem os nossos quatro amigos,
viram que não adiantava nada
e puseram-se gravemente a discutir se aquilo poderia ser mesmo de nascença ou…
– Mas nós não nascemos – interrompeu o cachorro – nós fomos

inventados! “

E Quintana conclui: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.”

A grande CECÍLIA MEIRELES também mente:

“Não acredite em tudo
que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.Quando não parece, é muito,
quando é muito, é muito pouco,
e depois, nunca é bastante…”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, fazendo ressalvas à Iuca, que prometeu florir novamente em janeiro ( e floriu!), ressalta o universo mentiroso daqueles que prometem e não cumprem , não esquecendo de incluir a si mesmo em tal universo:


“Muitas promessas não foram cumpridas nos últimos doze meses
.
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado,
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara-de-pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
‘Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota…’
Fez? Pois sim, seu Serafim! ”

Mas ninguém mentiu tanto quanto FLORBELA ESPANCA, mesmo quando pensava falar a verdade:

“Chuva…tenho tristeza! Mas por quê?!
Vento…tenho saudade! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!Ó chuva !Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura
Digam isto que sinto que eu não posso!!…”

De sonhos e expectativas construiu castelos inimagináveis… e transbordou na verdade de uma insaciável fome de Absoluto. Reconheceu em si, e nos outros, a impossibilidade do amor eterno :

“Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!”

E, no entanto, ela mesma morreu de amor…Amor não correspondido.

VINÍCIUS DE MORAES teve a desfaçatez de cantar aos quatro ventos ( e levar a vida inteira provando o contrário!):

” Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar!…”

O poeta precisa mentir para que o mais profundo de si seja revelado!Se “eles” tão gente fina
mentem tão tranquilamente
Por que eu, que não sou nada,
devo ter remorso ou pena
de sonhar sonho acordada?

Minhas palavras não são uma burka a esconder o que sinto.
São aquele sutilíssimo véu transparente com o qual as odaliscas pretendem proteger seu pudor…

(Mentira ou Verdade?)