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Histórias que ouvi contar

5 dez


Nenhuma seleção de historinhas é mais interessante que a Mitologia , a grega sobretudo.Vejamos que a moderna Psicologia não dispensa seus contributos para entender melhor a alma e o comportamento humanos.

Tenho muito gosto em reler “Dafne e Apolo” e suas desventuras. Dafne foi o primeiro amor de Apolo. Outros vieram depois, e muitos. Como aconteceu?


Tendo Apolo vencido Píton , a enorme serpente, e vaidoso disto, sentia-se senhor e dono do valor das armas que usou: arco e flecha. Daí que, nada satisfeito ao ver um garoto brincando com tais armas, reagiu:

“-Que tens a fazer com tais armas mortíferas, menino insolente?” E passou um grande pito naquele que, sendo filho de Vênus, não receberia a repreensão sem reação à altura:

“-Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem ferir-te.” E Cupido, pois era ele, o insolente, desferiu um golpe que marcou o deus com uma ferida incurável : a capacidade de amar, sem limite…
E mais, vingou-se ferindo, com seta de ponta feita com chumbo, uma belíssima garota, a ninfa Dafne pela qual Apolo se viu perdido de amores. Mas a seta malígna que feriu Dafne a tornou imune ao sentimento que devorava o coração do deus.

Muitas vezes o pai da ninfa esteve a implorar :”Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos…”
Sob a influência da vingança do pequeno deus do Amor, a moça , temendo o casamento, implorava de volta:
“-Pai querido, concede-me esta graça! Faze com que eu não me case jamais!”
A contragosto o pai consentiu, mas prevendo um futuro nada promissor para a garota.
“-O teu próprio rosto é contrário a este voto.”

Sem conhecimento do trágico vaticínio, Apolo amou-a e lutou para obtê-la… ele, oráculo de todo mundo, não foi capaz de prever o próprio infortúnio. Seguiu-a… ela fugiu a correr, mais rápida que o vento.
Ele suplicava: “-Para, filha de Peneu, não sou teu inimigo! Não fujas de mim como a ovelha foge do lobo!…É por amor que te persigo!…Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coração e agora sofro de uma enfermidade que bálsamo algum pode curar!”

Quanto mais ela fugia mais encantado ele ficava…Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com as asas do amor. Ele termina por alcançá-la. Ela em desespero invoca seu pai, o rio-deus:
“-Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me ou muda as minhas formas que me têm sido tão fatais!”
Algo extraordinário começou a acontecer mal ela acabou de proferir o seu apelo…(Extraordinário para os nossos conceitos atuais, mas não para uma época em que deuses manipulavam sem cerimônia tanto os sentimentos, os fatos, o tempo, a natureza e tudo que poderia ajudá-los em suas conquistas e vinganças!)…
Um torpor tomou conta do corpo de Dafne; uma leve casca passou a recobrir a sua pele, antes alva e macia; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus braços, em galhos; seus pés fincaram-se no chão gerando raízes; seu rosto conservou, de antes, somente a beleza…agora uma viçosa planta, o loureiro, que nunca perde a graciosidade, nunca perde o verde!
Apolo abraçou-se aos galhos e tentou beijá-los…os galhos recuaram…

“-Já que não podes ser minha esposa, serás a minha planta preferida e com tuas folhas enfeitarei a minha lira e a minha aljava; e, quando os grandes conquistadores desfilarem à frente dos cortejos triunfais, serás usada como coroa para suas frontes! E tão eternamente jovem, como eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão”.

Inúmeros poetas se serviram e beberam na fonte deste amor desventurado. Eu, poeta-menor, não me furto a me deixar influenciar por ele, também. Ligo-o a outra historia que ouvi contar…

Alguém que, como Carolina, da janela analisava suas circunstâncias. Ela, que um dia tinha vivido uma experiência dionisíaca, agora se encantava e se emocionava com o sofrimento do casal mitológico acima enfocado. Como toda Carolina, também esta via o tempo passar, sem perceber que pouco adianta os olhos fundos, guardando a dor de todo este mundo…isto não vai nada mudar…bem aconselhou o poeta. Lá fora as rosas continuam nascendo, mil versos são cantados só para agradar, muitos continuam sambando…Que falta para que Carolina acorde? Uma tola! Vai que morrem as rosas, a festa acaba, e aí ?

A mim, restou-me a inspiração sobre a suspiração desse povo emotivo ao extremo.

Semear…cuidar…colher
na seara de Dionísio
(para ela, opção alternativa)
desejo de sentir-se viva
Verdade dos sentidos
Mentira da mente

De resto…espera?
Esperança?
Desistência?
Ânsia?
Dormência.

Um dia (…uma noite?)
um vulto
Só um vulto
Primeiro…último…único:
Apolo perseguindo o ideal
(da janela ela observa a cena
testemunha a luta desigual)
Busca infecunda
Inútil corrida de atletas
-Ideal, somente sombra-
Dafne, apenas alcançada
desfaz-se em planta
a sedutora face.
Da janela ela vê a fuga da donzela

Apolo,
verdade da alma
Deus da música,
do canto, da lira, da cura…
nas mãos, folhas de louro
prêmio de vitória…Sem glória,
posto que satisfatória.

Ela, à distância,
acalma sua loucura…
desejo de ventura…
e chora.

Maiores esclarecimentos melhor consultar “O Livro de Ouro da Mitologia” de Thomas Bulfinch e claro, o grande Chico Buarque.

Ps. Brasileiro é tão debochado que utiliza o digno e honroso vegetal como condimento para temperar feijão! ( Minha nossa!)
Postado por Dinah Hoisel às 08:30