Tag Archives: Poesia – Temas Diversos

Anseios de um Artista

23 jan

DOMINGO, 23 DE JANEIRO DE 2011

Como já registrou o poeta, “tenho alma de artista e tremores nas mãos”(Aldir Blanc)…

Independente da forma de arte que o sufoca, o artista é um inseguro…depende do diálogo que pretende estabelecer com quem o aprecia…ou não.
O artista se ressente da ausência do retorno, do aplauso, da resposta, da ressonância que espera, acerca dos seus angustiados gestos.
Pintura…Escultura…Teatro… Literatura…Música…Não importa. Em cada uma, a exigência de feedback. Sem isso, ele se sente incapaz.

Alma em erupção
lança no ar seu tormento
Pincéis, telas, tintas, cores,
cristais fixam sentimentos…
Mas, tela muda não revela
dores, sonhos…fragmentos
do vulcão deliberado
que expulsa excrementos.

Ritmos, versos e rimas
– um grito desesperado
preso em páginas fechadas –
são fogos que não se acendem,
não voam…pássaros abortados
São flechas que erram o alvo
São canções jamais cantadas
São suplícios mal vividos,
errantes, não ouvidos…
não consolados.

Quisera poder cantar,
(com certeza, cantar é uma sangria!)
– na voz, gritos ou sussurros –
o que da alma é chama ardente
e ver o céu se enfeitar de
luzes, sombras, brisas, ventos,
tempestades…no nascente…no poente
Urubus, canários, andorinhas, águias
voando além do horizonte
Som transmutado em asas
libertando sentimentos.

O discurso do artista bem poderia repetir o que Roland Barthes descreveu como testemunho de um sujeito apaixonado:

“Profundamente empenhado em seduzir, em distrair, eu acreditava expor, ao falar, tesouros de engenhosidade, mas tais tesouros são apreciados com indiferença: dispendo minhas ‘qualidades’ à toa: toda uma excitação de afetos, de doutrinas, de saberes, de delicadeza, todo brilho do meu eu vem esmaecer-se, amortecer-se num espaço inerte…”

Quem nunca passou por isto?
Poderia o artista suspirar, inconsolável:

…e não fui…

O impulso é incontido
O horizonte, incontrolável
A estrada, o desafio
A vontade, botão de arranque
O destino, indefinido

O fim, não classificado
Acelerador, enlouquecido
A viagem, uma aventura

– …o freio de mão!
– Não fui eu quem o ativou…

Uma outra vereda para o GRANDE SERTÃO

29 jul

Um simples toque no nome de João Guimarães Rosa e vejo-me arremessada ao encontro de seus inesquecíveis personagens do Grande Sertão: Veredas.

Um romance que li com avidez. E não posso me furtar ao prazer de relê-lo muitas vezes, na busca dos tesouros encontrados nas suas mais de seiscentas páginas. Renovado desejo de rever e repensar inúmeras afirmações de valor imenso, só cabíveis na mente de um autor excepcional e que se destaca, além disso, pela originalidade do estilo.

De posse de uma bateia, eu preciso, volta e meia, recolher as pepitas de ouro escondidas naquele filão inesgotável.

Ali, o Bem e o Mal se digladiam com astúcia e fúria e, não raro, mudando de receptáculo. Sim, porque a generosidade, o companheirismo, a valentia, a fidelidade, o misticismo, o amor, a dor, a justiça, o medo, o ódio, não têm dono certo. São parte de um labirinto, ou uma teia, que envolve todos os personagens.

É o redemoinho onde O Que Não Há, o Diabo, o Coisa Ruim, o Tinhoso se farta.

O próprio Tatarana dá a receita:

" …para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah, basta se olhar no espelho – caprichando de fazer cara de valentia; ou de ruindade!"

Escrevo, hoje, para registrar uma injustiça que ficou pouco clara no tortuoso roteiro da narração.

Fácil é identificar o maldito da história; o Hermógenes. Para ele, parece não haver salvação. Nem um gesto, nem uma palavra, nenhum sentimento que revelem um mínimo de boa vontade em favor de alguém. É o emissário da morte inglória…o próprio Demo.

Não há dúvida sobre esse fato. Ele mata…e pronto!

Não importa quem seja a vítima…cruzou o seu caminho, atrapalhando seus planos, inimigo ou inocente, o destino está selado! "Hermógenes, homem que tirava seu prazer do medo dos outros, do sofrimento dos outros".

Não é ele que quero colocar no banco dos réus.

Meus olhos se voltam para Reinaldo, mais conhecido como Diadorim.

É. Diadorim, sério, bonito, gostando de silêncios [o que demonstra introspecção] braços alvos, e rosto corado, grandes olhos verdes, finas feições… assim o descreve Riobaldo. Um Riobaldo apaixonado, um Riobaldo torturado por um sentimento condenável, um jagunço valente, cabra macho cuja coragem fora conquistada a duras penas, nas temíveis batalhas do cangaço…Um homem tão perturbado que chega a sonhar com o objeto do seu delírio passando sob o arco-íris.

Ah! Assim estaria livre daquele feitiço, e livre para realizar o seu amor.

Diadorim sabia! Sabia o que se passava no íntimo do seu "amigo". Sabia…mas silenciava…

Escondia-se sob o manto de tenebrosa mentira.

Aquela infeliz podia ter mudado o destino dos dois.

Podia ter encontrado o momento próprio de revelar-se.

Podia, quem sabe, numa noite de lua, ter saído das águas de um riacho, como uma deusa grega, uma Afrodite do sertão, vestida da nudez reveladora…mas, não!


No meu entender, ela foi o maior algoz de toda a trama!

Em nome de uma vingança, assassinou o Amor…

Bato o martelo!

Fim do julgamento: Culpada!

Matar o Amor é tão cruel quanto matar pessoas.

O desprezo indefensável de Diadorim fez de Riobaldo o eterno sofredor que revive, com a interferência de cada novo leitor, o seu tormento, naquele lamentoso depoimento ao ouvinte fantasma.

Justifico o veredicto:

Ah! Diadorim
Foste intransigente demais.
Dia após dia,
noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura …
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.

De quem queria te tocar,
te falar, te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível
te servir
te acariciar…
Estar sempre ao teu lado
passar a mão em teus cabelos
te fechar os olhos
te ninar
cantar, talvez, uma canção de amigo
para que pudesses dormir ao seu abrigo.
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.
Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo um passarinho…

Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o Demo…
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas,o sol da estrada.

Ah! Diadorim…
Não há perdão para tamanho sacrifício
Não há perdão para tanto desperdício.



P.S. Claro que se a história terminasse com um happy end o romance não passaria de um folhetim semelhante a outros tantos.

Maria Deodorina criando filhinhos – um a cada ano – criando galinhas, plantando hortaliças e flores, enquanto Riobaldo – não mais Tatarana – deitado numa rede, cofiando o bigode, apreciaria o grande plantel de animais ultra selecionados que amealhara com seu trabalho, ajudado pela polpuda herança e pelos amigos influentes.

Felizmente, J.G.Rosa não me pediu opinião.

Mário Quintana, um Mestre.

20 jul

Senhoras e senhores,
continuo minha peregrinação pelas "causas indefensáveis".

Talvez esse tempo de ventos uivantes e uma chuva que não passa, nos obrigue a uma interiorização com sabor doentio, quando, então, o nosso "porão" sofre um processo de desinfecção obrigatória.
A água que cai, vem lavando recantos esquecidos. É um momento próprio para reconsiderar…

Minha terra é chamada "Ilha da Fantasia" devido ao sol e à música que nela imperam…são sua alma e seu sangue…

De repente, uma sombra recobre tudo. E o sentimento da gente vai junto…E o jardim também…

Pensando no jardim e nas pessoas, levanto mais uma bandeira de reconciliação.


Vejam o que diz
Mário Quintana:

O que mata um jardim
não é mesmo alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim
é esse olhar vazio
de quem por ele passa, indiferente.

… e eu completo:

Creio que também
é esse olhar que mata
as pessoas que perpassam
à nossa volta, mendigando atenção
…e nem são vistas!
O olhar indiferente
as torna transparentes
…e mortas!

Dedico esse post a Bruna… uma pessoa que a vida se incumbiu de maltratar e fazer dela um alguém que, por onde passa, sofre rejeição.
Define-se como "ela", embora tenha nascido "ele".

Bruna copy
Aproxima-se das pessoas para pedir ajuda, mas o seu aspecto não colabora. Quase sempre sujo, dentes em último estágio de destruição, cabelo desgrenhado, uma magreza inquietante, reveladora do mal que o consome.

Quando o recrimino pelo seu aspecto desleixado , ele retruca:
"Mãe, não tenho nem dinheiro para comprar sabão para lavar as minhas calcinhas!…"
Tenho certeza que, apesar de tudo, ainda lhe resta uma boa dose de humor:
"Estou operada… retirei o útero!…"
Ele se torna grosseiro e até agressivo se lhe negam a esmola…mas não ultrapassa as palavras.

Eu já sofri muita incompreensão pela atenção que lhe concedo.

Não poderia agir diferente!

Ele retribui vindo me ver, sempre tomado banho, cabelo cortado, roupa lavada…só as unhas estão sempre horríveis! (mas ele as esconde para que eu não as veja…)

Um dia ele me disse: "Sabe por que eu gosto da senhora?"
E ele mesmo respondeu: "Porque a senhora me olha!"

Bruna me adotou como "mãe"… e não se sente nem um pouco incomodado em apresentar minha filha como sua "irmã", onde quer que a encontre…
Fala isso com uma certeza comovente.

Eu bem sei que o rumo que sua vida tomou tem muito da sua própria responsabilidade. Mas tenho certeza maior ainda – muitos foram os que colaboraram para transformar uma criança linda e saudável, ou o cozinheiro competente que outrora ele foi, naquele coitado que depende da compaixão dos outros.

Uma última palavra

Guimarães Rosa:

"Eu sei: nojo é invenção do Que Não Há para estorvar que se tenha dó."

Em nome da Justiça

14 jul

Mais uma vez encontro-me na situação premente de continuar em defesa das "injustiças injustificáveis"(!).

Creio mesmo que, no meu histórico, está faltando uma página deveras importante: advogada das causas impossíveis…mas aí eu tomaria o lugar de um santo muito respeitado e requisitado – Sto. Expedito.

Vamos aos fatos.

Conheço um senhor que, continuamente, não é levado a sério. Fazendo parte de um grupo de pessoas sérias (Exupéry as reconhecia há long, long time ago !) sempre que o meu quase amigo fazia alguma colocação, ou defendia alguma tese no ambiente grupal, os companheiros rejeitavam e até condenavam seus pontos de vista. Achavam-no não apenas irônico, mas até debochado…

Ele não aceitava tal juízo, que considerava injusto. Não posso opinar com segurança uma vez que não faço parte do seleto grupo (acho que não sou uma pessoa séria o suficiente!). Sendo assim não me cabe o direito de aferir ou compreender o mérito ou o demérito das suas ditas irreverências.

Ora vejam! Um dia ele se sai com essa: "Senhores, eu amo o som da minha descarga!"

No ambiente antisepticamente ético, de moral ilibada, politicamente correto, o anúncio caiu como uma provocação!

Era o absurdo levado a extremos. Era a exacerbação do deboche. Era a explosão da picardia.

E, como nunca, ele se viu acuado pelas disposições em contrário.

E ele ficou triste!

Sabendo do ocorrido, revesti-me com a túnica da defensoria pública.

E pensei…pensei…refleti…até atingir o âmago da questão!

Foi então que a minha alma de poeta veio em seu socorro, retirando da sua reflexão o sumo da verdade que ela contém:

A Descarga

Talvez por isso

eu ame o som da minha descarga.

Ela me livra, me dispensa

daquilo que, em mim, é excrescência.

É por ela que

de novo, me sinto novo.

Há um renascer a cada golpe

de limpeza dos resíduos.

Um passo novo…

um recomeço.

Uma retomada de caminho.

Fonte de novas escolhas.

Ao esgoto como o mau cheiro

que pode invadir meu ninho.

A água que corre

me livra de pecados escondidos.

Liberta-me de amores complicados.

Afasta-me de sonhos impossíveis

…de muita carga pesada.

…de dores não confessáveis

…sobras não aproveitáveis:

mágoas, sustos, tristezas, vulgaridades.

É, a descarga, a esperança,

o albor de nova era,

certeza de novo chão

…ela me torna outra vez confiante!

Por ela meu corpo se recupera

e minha alma se eleva.

Como podemos perceber, basta um pouco de boa vontade. Afinal, o som da descarga traz, em si, sentido semelhante ao som das trombetas do juízo final: Após aquele som, a redenção!

…E quanto à Solidão…

31 maio
Todos  conhecemos a esperteza de Sheherazade. Além de burlar a morte, ainda conquistou o amor de um Príncipe, antes irascível e descontente, tornando-o um amor de criatura. Mulherzinha inteligente! Suas histórias noturnas, o seu salvo-conduto.

Para o poeta, suas poesias, seus escritos são, também, uma espécie de salva-vidas. Se existe quem os ouça, ótimo! Se não existem ouvidos atentos, não importa. Ele é capaz de entender. No fundo, sua intuição lhe confere um saber incômodo:

Poesia… coisinha chata!

Somente ao próprio poeta arrebata!

Tola que fui, também aventurei-me na brincadeira de juntar palavras, pensando atribuir-lhes sentido. Nem percebi que vacilei entre sonhos, fantasias e realidade.

Com certeza as verdades do poeta não permitem métodos científicos de comprovação. Cada registro seu, tem seu momento próprio de veracidade, que pode diluir-se como a fumaça de um cigarro, no instante imediatamente posterior. Contudo, no seu momento próprio, ele é indiscutivelmente verdadeiro (para ele, o poeta!).

Agora, ao meu lado, percebo claramente “aquela” presença. Se vocês não a vêem, não me  responsabilizem por tal incompetência.

Ali, de novo, a companheira que não me abandona. Mesmo quando a obrigo a manter distância, é apenas uma distância hipotética. Seu olhar não se desvia do meu, ainda que eu finja ignorá-lo… ele está lá…sempre.

Ela sabe-se necessária porque é a única fidelidade.

Onde estão os outros?

O beija-flor que, que diariamente vinha ouvir música?

As flores…não!…as flores, não! O jardim inteiro…Há em seu lugar um terreno massacrado, com apenas alguns sobreviventes…como a “lágrima-de-cristo” que teima em florescer (sintomático!).

E aquela amiga? …Não sei.  Sumiu nas esquinas dos bares…

E Gabriela, com seu jeitinho de dona, ou de feitor, trazendo em seu poder (nos dois sentidos!) o chicote com o qual me dominava, e eu, submissa,  me deixava dominar, envolvida pelo fascínio daquela pessoinha de três anos, senhora e dona do meu afeto?

Mesmo meu tigre, que por motivos óbvios, não pode se afastar (é de mentirinha…), resolveu fazer silêncio, como que recusando-me a “palavra”…
E ela, a que não me abandona, preenche todos esses vazios…Ela, a solidão do espinho !
Nada posso fazer contra essa sensação de abandono. Os espinhos não são meus. São do outro .
O espinho próprio é corajoso, é decisão de alguém que não aceita proximidades…prefere ignorar qualquer mão ou afeto.
Quando o espinho é do outro, aí, só aí, é que há ferimento.E dor…e desconsolo…Dilacera.
A solução  que se impõe : corresponder ao único olhar realmente fiel. Estender as mãos, para que a caminhada não seja desesperada. Caminhar só (se é imposição extrínseca) é receita de envelhecimento precoce. É condenação antecipada, supõe desesperança, desânimo, cansaço…vontade de deixar escorrer sobre areia fervilhante qualquer seiva que ainda exista.
Nos labirintos  em que nos perdemos, a solidão escolhida é fundamental… solidão compreendida, aceita, acolhida, bem-vinda.
Olhar-se em seus olhos é ver-se.
Acompanhar-se de si mesmo… Pode até ser triste, mas consolador.

Para que  esta conversa não acabe sem uma mínima homenagem à POESIA, passo para vocês uma beleza à qual o  tempo não ousará, nunca, desqualificar:

AS DUAS SOMBRAS

Na encruzilhada silenciosa do destino
Quando as estrelas se multiplicaram
Duas sombras errantes se encontraram.
A primeira falou: -Nasci de um beijo
de luz: sou força, vida, alma, esplendor.
Trago em mim toda a ânsia do desejo
Toda a glória do universo…Sou o Amor.
O mundo sinto exânime a meus pés…
Sou delírio…loucura…e tu, quem és?
– Eu, nasci de uma lágrima. Sou flama
do teu incêndio que devora…
Vivo dos olhos tristes de quem ama
Para os olhos nevoentos de quem chora.
Dizem que ao mundo vim para ser boa,
Para dar de meu sangue a quem me queira.
Sou a Saudade, a tua companeira,
Que punge, que consola, que perdoa…
E na encruzilhada silenciosa do destino,
As duas sombras comovidas se abraçaram,
E, de então, nunca mais se separaram.
Olegário Mariano