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Mário Quintana, um Mestre.

20 jul

Senhoras e senhores,
continuo minha peregrinação pelas "causas indefensáveis".

Talvez esse tempo de ventos uivantes e uma chuva que não passa, nos obrigue a uma interiorização com sabor doentio, quando, então, o nosso "porão" sofre um processo de desinfecção obrigatória.
A água que cai, vem lavando recantos esquecidos. É um momento próprio para reconsiderar…

Minha terra é chamada "Ilha da Fantasia" devido ao sol e à música que nela imperam…são sua alma e seu sangue…

De repente, uma sombra recobre tudo. E o sentimento da gente vai junto…E o jardim também…

Pensando no jardim e nas pessoas, levanto mais uma bandeira de reconciliação.


Vejam o que diz
Mário Quintana:

O que mata um jardim
não é mesmo alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim
é esse olhar vazio
de quem por ele passa, indiferente.

… e eu completo:

Creio que também
é esse olhar que mata
as pessoas que perpassam
à nossa volta, mendigando atenção
…e nem são vistas!
O olhar indiferente
as torna transparentes
…e mortas!

Dedico esse post a Bruna… uma pessoa que a vida se incumbiu de maltratar e fazer dela um alguém que, por onde passa, sofre rejeição.
Define-se como "ela", embora tenha nascido "ele".

Bruna copy
Aproxima-se das pessoas para pedir ajuda, mas o seu aspecto não colabora. Quase sempre sujo, dentes em último estágio de destruição, cabelo desgrenhado, uma magreza inquietante, reveladora do mal que o consome.

Quando o recrimino pelo seu aspecto desleixado , ele retruca:
"Mãe, não tenho nem dinheiro para comprar sabão para lavar as minhas calcinhas!…"
Tenho certeza que, apesar de tudo, ainda lhe resta uma boa dose de humor:
"Estou operada… retirei o útero!…"
Ele se torna grosseiro e até agressivo se lhe negam a esmola…mas não ultrapassa as palavras.

Eu já sofri muita incompreensão pela atenção que lhe concedo.

Não poderia agir diferente!

Ele retribui vindo me ver, sempre tomado banho, cabelo cortado, roupa lavada…só as unhas estão sempre horríveis! (mas ele as esconde para que eu não as veja…)

Um dia ele me disse: "Sabe por que eu gosto da senhora?"
E ele mesmo respondeu: "Porque a senhora me olha!"

Bruna me adotou como "mãe"… e não se sente nem um pouco incomodado em apresentar minha filha como sua "irmã", onde quer que a encontre…
Fala isso com uma certeza comovente.

Eu bem sei que o rumo que sua vida tomou tem muito da sua própria responsabilidade. Mas tenho certeza maior ainda – muitos foram os que colaboraram para transformar uma criança linda e saudável, ou o cozinheiro competente que outrora ele foi, naquele coitado que depende da compaixão dos outros.

Uma última palavra

Guimarães Rosa:

"Eu sei: nojo é invenção do Que Não Há para estorvar que se tenha dó."

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Com Mário Quintana, retorno à POESIA

31 jan

Não são necessários muitos dias longe do assunto primordial desse blog – A POESIA –
para que eu sinta uma tremenda saudade… a falta da Poesia me provoca uma incontrolável “crise de abstinência”.
Mário Quintana vem aqui me devolver o equilíbrio:

EMERGÊNCIA


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.Quem faz um poema salva um afogado.

E mais :

” Fora do ritmo, só há danaçãoFora da poesia não há salvação.” (M.Q.)


Quanto à forma de paginar os poemas, o poeta é bem claro:

“Os livros
de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-las de desenhos – gatos, homens, aviões, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão a fazer parte dos poemas”.
E, se algum espaço sobrar, que possa um poeta utilizá-lo… e escrever palavras que lhe venham a transbordar, carregadas de sentimentos e incontidas emoções.
E ali deixar gravado o que o instante inesperado lhe sussurrou num incontrolado impulso.
Eu, da minha parte, tenho usado e abusado desses claros…
Grata, poeta amigo, pelo espaço liberado!

Preciso agradecer, de público,

AO POETA

Bendigo cem mil vezes o poeta
que diz de mim o que
nem eu mesma sei dizer.

Passeia pela minha alma e vê.
Vai bem fundo,descobre, aprecia,
desvela…e anuncia.

Põe a nu a minha alma morta,
a minha alma triste,
a minha alma cheia de alegria.

Que bruxo é esse que expõe ao sol
o que, cheia de pudor, eu escondia?
De longe vem para me conhecer
e revelar quem sou.

Me assusta essa magia louca:
tirar de mim palavras que não disse,
palavras que jamais chegaram
à minha boca,
pois revelar-me é algo que não posso.

Embora falando
em nome de si mesmo,
é por mim que ele canta
e muitas vezes chora.

Vai, poeta amigo,
espalha pelos ventos teu poder,
Mas não reveles nunca este segredo nosso.

Nem sempre eu sou tão generosa em relação aos fantasmas que bisbilhotam o mais íntimo de cada um. E reajo!

A espreita

Não dou chance
ao fortuito fantasma
que me acompanha
(e que sou eu mesmo).
Vive a me espionar.
Espera o momento
em que eu baixe a guarda.
Pensa descobrir
o que não quero revelar.
(Vai cansar…)

Seu olhar, fixo em mim,
eu finjo não perceber.
Ele se finge casual…
Mas não é!

Como felino à espreita da caça
a qualquer momento ele salta
e romperá o tênue véu
que encobre a minha intimidade
(…é o que ele pensa?!)


Verá! Eu sou mais Eu!


O POETA… E A MENTIRA

10 dez


Nem um único poeta merece confiança.

Tenho absoluta (quase!) certeza: é essencial que se desconfie da sinceridade poética de todos eles.

CHICO BUARQUE mente…e assume isto com uma displicência estarrecedora. Quem o ouve cantando “Cecília” e o crê tímido e apaixonado, se assusta ao vê-lo dizer, com toques de ironia e um risinho debochado:”…as minhas [ mulheres] são todas inventadas!”

FERNANDO PESSOA ?…um fingido contumaz!

MANOEL DE BARROS fantasia :

” O olho vê, a lembrança revê,
a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo”…
………………………….
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.”

MÁRIO QUINTANA inventa:

Eu já escrevi um conto azul, vários até.
Mas este agora é um conto de todas as cores.
Sim, porque era uma vez
uma menina verde
um menino azul
um negrinho dourado
e um cachorro com todos os tons e entretons do arco-íris.
Até que,
devidamente nomeada pelo Senhor Prefeito,
veio ao seu encontro uma Comissão de Doutores
-todos eles de preto, todos eles de barbas, todos eles de óculos
E,
por mais que cheirassem e esfregassem os nossos quatro amigos,
viram que não adiantava nada
e puseram-se gravemente a discutir se aquilo poderia ser mesmo de nascença ou…
– Mas nós não nascemos – interrompeu o cachorro – nós fomos

inventados! “

E Quintana conclui: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.”

A grande CECÍLIA MEIRELES também mente:

“Não acredite em tudo
que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante.Quando não parece, é muito,
quando é muito, é muito pouco,
e depois, nunca é bastante…”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, fazendo ressalvas à Iuca, que prometeu florir novamente em janeiro ( e floriu!), ressalta o universo mentiroso daqueles que prometem e não cumprem , não esquecendo de incluir a si mesmo em tal universo:


“Muitas promessas não foram cumpridas nos últimos doze meses
.
Eu mesmo, ativo cobrador de promessas,
terei prometido e faltado,
no mínimo sete vezes por semana
e, o que é pior,
ostentando indefectível cara-de-pau.
Homens enganaram homens e mulheres
com voz de flauta doce:
‘Vou fazer isso, vou fazer aquilo,
vocês têm de confiar neste compatriota…’
Fez? Pois sim, seu Serafim! ”

Mas ninguém mentiu tanto quanto FLORBELA ESPANCA, mesmo quando pensava falar a verdade:

“Chuva…tenho tristeza! Mas por quê?!
Vento…tenho saudade! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!Ó chuva !Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura
Digam isto que sinto que eu não posso!!…”

De sonhos e expectativas construiu castelos inimagináveis… e transbordou na verdade de uma insaciável fome de Absoluto. Reconheceu em si, e nos outros, a impossibilidade do amor eterno :

“Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!”

E, no entanto, ela mesma morreu de amor…Amor não correspondido.

VINÍCIUS DE MORAES teve a desfaçatez de cantar aos quatro ventos ( e levar a vida inteira provando o contrário!):

” Eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar!…”

O poeta precisa mentir para que o mais profundo de si seja revelado!Se “eles” tão gente fina
mentem tão tranquilamente
Por que eu, que não sou nada,
devo ter remorso ou pena
de sonhar sonho acordada?

Minhas palavras não são uma burka a esconder o que sinto.
São aquele sutilíssimo véu transparente com o qual as odaliscas pretendem proteger seu pudor…

(Mentira ou Verdade?)




Poetas… e eu

2 nov

Já comentei, sem medo de errar:
Talvez, hoje, o que mais me agrada é estar em contato com poetas…esclareço que a maioria deles já retornou ao Olimpo.

Haverá,
ainda,
no mundo,
coisas tão simples
e tão puras
como a água bebida
na concha das mãos?

Mário Quintana

Suponho que sim …Aquele que não se condena por beber de maneira tão infantil, tão ingênua, tão simples e tão primitiva.

Moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
Vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia.

Paulo Leminsky

Em noites de boemia
é fácil criar poesia…
Sobram-me as noites…
Falta-me a boemia.

Dinah

Nunca cometo o mesmo erro
duas vezes.
Já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

Paulo Leminsky

Um erro cometido
2, 3, 4, 5…mil vezes,
talvez não seja um erro.
Talvez seja um acerto
em um baile de máscaras.

Dinah

Eu grito daqui
Você grita daí
Quem berrar mais alto
é que tem razão

O Rebelde

Não exijo ter razão
Destarte, não grito.
Prefiro falar baixinho
vestindo-me, ou não, de razão.

Dinah

Quero muito que venha o dia em que TODOS falem em ritmo de poesia…

Calmamente, espero… Sou teimosa! Vem comigo!