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Em nome da Justiça

14 jul

Mais uma vez encontro-me na situação premente de continuar em defesa das "injustiças injustificáveis"(!).

Creio mesmo que, no meu histórico, está faltando uma página deveras importante: advogada das causas impossíveis…mas aí eu tomaria o lugar de um santo muito respeitado e requisitado – Sto. Expedito.

Vamos aos fatos.

Conheço um senhor que, continuamente, não é levado a sério. Fazendo parte de um grupo de pessoas sérias (Exupéry as reconhecia há long, long time ago !) sempre que o meu quase amigo fazia alguma colocação, ou defendia alguma tese no ambiente grupal, os companheiros rejeitavam e até condenavam seus pontos de vista. Achavam-no não apenas irônico, mas até debochado…

Ele não aceitava tal juízo, que considerava injusto. Não posso opinar com segurança uma vez que não faço parte do seleto grupo (acho que não sou uma pessoa séria o suficiente!). Sendo assim não me cabe o direito de aferir ou compreender o mérito ou o demérito das suas ditas irreverências.

Ora vejam! Um dia ele se sai com essa: "Senhores, eu amo o som da minha descarga!"

No ambiente antisepticamente ético, de moral ilibada, politicamente correto, o anúncio caiu como uma provocação!

Era o absurdo levado a extremos. Era a exacerbação do deboche. Era a explosão da picardia.

E, como nunca, ele se viu acuado pelas disposições em contrário.

E ele ficou triste!

Sabendo do ocorrido, revesti-me com a túnica da defensoria pública.

E pensei…pensei…refleti…até atingir o âmago da questão!

Foi então que a minha alma de poeta veio em seu socorro, retirando da sua reflexão o sumo da verdade que ela contém:

A Descarga

Talvez por isso

eu ame o som da minha descarga.

Ela me livra, me dispensa

daquilo que, em mim, é excrescência.

É por ela que

de novo, me sinto novo.

Há um renascer a cada golpe

de limpeza dos resíduos.

Um passo novo…

um recomeço.

Uma retomada de caminho.

Fonte de novas escolhas.

Ao esgoto como o mau cheiro

que pode invadir meu ninho.

A água que corre

me livra de pecados escondidos.

Liberta-me de amores complicados.

Afasta-me de sonhos impossíveis

…de muita carga pesada.

…de dores não confessáveis

…sobras não aproveitáveis:

mágoas, sustos, tristezas, vulgaridades.

É, a descarga, a esperança,

o albor de nova era,

certeza de novo chão

…ela me torna outra vez confiante!

Por ela meu corpo se recupera

e minha alma se eleva.

Como podemos perceber, basta um pouco de boa vontade. Afinal, o som da descarga traz, em si, sentido semelhante ao som das trombetas do juízo final: Após aquele som, a redenção!

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Pensamentos… em um dia chuvoso

8 jul

Durante toda a minha vida tentei, se não eliminar, pelo menos identificar as injustiças do cotidiano…e elas são tão várias! Um exemplo clássico de injustiçado é o urubu. Considerado feio, as pessoas não lhe reconhecem os méritos e nem percebem a extraordinária beleza do seu voo incomparável.E que dizer da sua função precípua de recolher e “engulir” os resíduos que todos rejeitam?

Deixem-me, hoje, dar a ele o lugar que lhe cabe, ao menos no meu analógico imaginário.

Ao Urubu

Quero trazer-te, sim,

para dentro de minh’alma.

Terás um farto banquete.

Como toda gente,

tenho cá dentro,

em recônditos espaços,

carniças que busco esconder,

sentimentos de odor insuportável

…não os quero conservar!

Vem, és tu o meu remédio.

Preciso limpar meu ego,

recuperar a infância sem temor,

sem mágoas, sem vaidades, sem rancor…

e então poder flanar contigo

em alturas memoráveis,

em viagem admirável,

em voo contemplativo

sobre o reino de além-dor…

Vendo a mim mesma

como flor que acaba de se abrir

e a ti como meu libertador.

Essa poesia me traz de volta a um acontecimento inesquecível que guardo na memória.

Certa feita, estava com um grupo amigo em conhecida praia da nossa Bahia.

Sob frondosas amendoeiras, em um rústico restaurante, fui “apresentada” a um Urubu, que passeava galhardamente pelo chão, como se fosse um galináceo qualquer. Teria caído do ninho e alguém o recolhera, cuidadosamente, e o estava criando como bichinho de estimação. Pelo visto ele adorava sua inusitada situação.

Aproximei-me, olhei-o bem nos olhos, sorri…Com certeza absoluta, ele captou toda ternura que coloquei naquele olhar…e correspondeu!

Passou a me seguir enquanto brincávamos de “O Sombra”…Eu, na frente, e Ele me acompanhando…Em questão de segundos nos tornamos um espetáculo para as pessoas em volta. Entre divertidas e espantadas elas nos olhavam impressionadas com aquele show incomum.

Mas o momento mágico teve fim, pois eu devia continuar o meu caminho, abandonando aquele afeto surgido inesperadamente… fortuito, mas profundo. Eu o deixei , sabendo que não o veria nunca mais…tal qual a amizade entre um conhecido Pequeno Príncipe e uma Raposa…ou um Aviador e o dito Pequeno Príncipe…

Fui embora,mas aquela figurinha é, hoje, um ícone no altar da minha memória afetiva. Guardo-o com carinho e faço desse Urubu um amigo e um conselheiro.


…Coisas da Vida…ou da Imaginação…


É compreensível que os Mitos, as Religiões, as Artes e a Ciência da Alma tenham conseguido rastrear e identificar essa Entidade que atua no eu-profundo dos seres humanos e da qual meu Urubu é apenas um símbolo.



Mudando de assunto.


O triste cotidiano tem invadido a minha privacidade com notícias da minha terra, as quais me deixam muito abatida. O Nordeste parece ser um “filho enjeitado” com o qual tudo pode acontecer.


Pasmo nordestino

Que enormidade de chuva

vem caindo sobre a terra.

Parece que o céu decidiu

afogar de uma só vez

todas as mágoas do mundo.

Nesse tempo desolado

onde se escondem as avezinhas

tão frágeis, tão pequeninas?

Não é só dia chuvoso,

é arremedo de dilúvio!

Um dia há que parar…

não se pode viver assim

sob ritmo tão triste,

melodia de um só tom,

suprema monotonia

…e chove…chove…chove…

Até as plantinhas dizem:

“Já chega!”

Por que tem que ser assim?

Ou sol abrasando tudo

ou a água inundando o mundo?